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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

"Pai, me adiciona no orkut?"




Matéria especial dia dos pais para o site da Carta Capital.
Publicada em 8 de agosto de 2008.
Juliana Boechat.

Na perna esquerda do estudante Filipe Thadeu Furtado, 21 anos, tem uma tatuagem. São três datas que definem grandes marcos da vida do garoto. A primeira, como não podia deixar de ser, é a data do nascimento, em 20 de março de 1987. Logo abaixo, a adolescência e a ida ao show da banda favorita de rock Aerosmith, em 12 de abril de 2007. E o fato mais recente, o dia em que conheceu o pai, Saulo Furtado, em 11 de outubro de 2007. Filipe nunca imaginou que o grande encontro aconteceria. Muito menos que seria graças ao site de relacionamento Orkut, pouco usado por Filipe até então.

Desde a infância, o jovem mora em Brasília com a família materna. Enquanto isso, imaginava como seria a vida do pai em Arapongas, no interior do Paraná. Ele sabia que os irmãos tinham perfil no Orkut, mas nunca pensara em se aproximar. Mas em um dia qualquer, em um surto de coragem, Filipe enviou uma mensagem para Samira, irmã por parte de pai, três anos mais nova que ele. Ela não correspondeu. Estava em intercâmbio na África do Sul.

A outra saída era Sara, a irmã com a mesma idade, que não sabia da existência do irmão de Brasília. No início de setembro, depois de trocas de "scraps", a menina bonita adicionou Filipe no MSN. Certamente, o rapaz nunca esperava conhecer alguém tão importante via bate-papo virtual.

Logo na primeira conversa, ele contou: "Era uma vez uma história de um cara que tem dois filhos da mesma idade. E um deles mora em Brasília". Quando ela percebeu o acontecido, logo convidou o novo irmão para ir a Arapongas no feriado de 7 de setembro. "Achei melhor não ir, era muito cedo", lembra. Mas não resistiu. Como que por ironia, no dia das crianças o garoto arrumou as malas e se preparou para conhecer o pai.

A viagem durou cinco horas até Londrina, cidade mais próxima de Arapongas com aeroporto. Filipe sentia o coração palpitando com força, o estômago embrulhava quando pensava no assunto e suava frio. Mr. Tambourine Man, do Bob Dylan, foi o melhor sedativo e ficou marcada com todas as sensações daquele momento eterno. Ao chegar ao sul, se deparou com o inesperado. Na sala de desembarque estavam pai, "mãe", irmã e irmão. Depois do primeiro momento de abraços desconcertados, os dias se tornaram inesquecíveis para toda a família. "Era estranho viver e gostar de tudo aquilo".

E não havia motivos de preocupação. As primeiras impressões deixaram Filipe tranqüilo, confortável e satisfeito. Ele se sentia em casa, como não acontecia há anos. O pai, simples, de bom coração e feliz com a família que tem. Gigliola, a madrasta, virou a segunda mãe. Saulinho, o irmão de 15 anos se mostrou maduro e espontâneo. E Sara. "A pessoa mais maravilhosa que já surgiu em minha vida", define o estudante.

Filipe também se apaixonou à primeira vista por Arapongas. Assim como a família Furtado, a cidade era acolhedora e interiorana. Logo na entrada da cidade, viu a oficina do pai e ficou orgulhoso. Em grandes churrascos, foi apresentado ao resto da família e aos amigos. O avô materno, famoso na cidade por causa da fábrica de móveis que trabalhara, levou Filipe para participar da entrevista semanal na rádio local. Filipe contou sobre a rotina em Brasília e respondeu a perguntas inusitadas de quem não mora na capital do Brasil: "Você já encontrou Mônica Velloso na rua?".

Saulo, Saulinho, Gi e Sara acolheram Filipe como parte da família desde o primeiro momento. Na hora do almoço, conversas banais sobre unha encravada, bandas de rock e arrotos do irmão caçula mostravam como estavam confortável com a presença dele. Mas a grande prova da satisfação da família em receber Filipe apareceu de maneira inesperada. A família havia montado um quadro de fotos recheado de momentos dos irmãos e dos pais, com uma foto dele ao centro. "Filho, bem-vindo a sua família. Nós te amamos!". Filipe ficou roxo, as lágrimas quase transbordaram, mas ele se segurou ao máximo.

O último dia demorou a chegar. Filipe não queria que chegasse porque odeia despedidas. No aeroporto, depois de muitos flashes para registrar o momento, abraços fortes e carinhosos, o estômago dele voltou a embrulhar. O momento de deixar aquele sonho havia chegado. Mais uma vez guardou as emoções. Mas em Brasília, longe da nova família e da "velha", finalmente parou de resistir e chorou tudo o que guardara durante 20 anos. "A partir de agora serão sempre períodos de três dias ou férias. Fico com medo de não tirar o tempo de atraso", diz.

A viagem de poucos dias mudou a vida da família e de Filipe. O contato continua pelas modernidades de Orkut, MSN e celular. Ainda escapa algumas vezes da rotina em Brasília para conferir se o interior do Paraná continua do mesmo jeito que ele deixou. O natal do ano passado e a virada de 2007 para 2008 tiveram um gosto especial. Gosto de família. Agora, o dia dos pais, no próximo domingo, também será diferente. O dia, que antes era vazio, será recheado de saudade e vontade de estar perto do pai. A data, para Filipe, passou a ser a mais significante do ano.