sexta-feira, 9 de maio de 2008

Seis linhas, por favor.

Estava quieta. Era sexta-feira e batia aquela preguiça de final da semana. Antes do almoço eu já tinha terminado o meu trabalho. Voltaria à tarde para o jornal só para ajudar os outros estagiários e lapidar o que eu já tinha feito. Evitar o estresse é o nosso lema. Como já era por volta de 13h, peguei minha bolsa e decidi almoçar, mas meu chefe me parou: "Tá tudo adiantado? quer fazer uma matéria?", perguntou. Eu não lembro a última vez que fiz uma matéria e saiu no jornalão. Muito menos uma pauta não-social, que não fosse de meninos de rua jogando bola e histórias de crianças carentes em visitas à embaixada x ou y.
Então é claro que aceitei.
Eu deveria acompanhar a apresentação de uns dados do Hospital de Base. O hospital tratava mais casos de acidentes de queda -- de escadas, na rua, em casa --, do que de acidentes de trânsito. E isso era "alarmante".

Almocei correndo, voltei para o jornal, pedi o carro, e fui. Às 14h em ponto eu estava sentada no auditório do HB, pronta para anotar absolutamente tudo. Eu achava que os dados eram importantes, então assimilaria tudo rapidamente e iria em busca da minha parte favorita nas matérias: os personagens. Mas o evento só começou por volta das 15h, quando a loirinha global chegou, junto com um cara gordo e de cabelos brancos que eu descobri ser o secretário da saúde, Geraldo Maciel.
É assim que funciona: Globo chegou, chega todo mundo; o que não tinha começado, começa; o que não tinha acabado, acaba. E ai de você se reclamar...
Mas me arrependi de ter desejado que a apresentação fosse rápida. Logo no terceiro slide, não entendia mais nada que a "servidora do Ministério da Saúde" falava. Não dava tempo de anotar o que ela dizia, nem de ver as imagens no power point produzido com tanto carinho. Era tudo voando e a mulher falava tudo errado. Entrei em desespero. No meio das explicações eu me flagrava pensando: "Não é póprio que fala, é própriooo", e pronto, quando eu dava por mim, já estava perdida de novo. Ela também tinha uma mania de comentar sobre a realidade social no mundo. Eu pensava em me matar ali, naquele momento.

Quando me concentrei de novo, percebi que o pessoal da Globo, da CBN e o secretário não estavam mais na sala. Então por que eu estava?
Eles saíam, eu saía, uma loucura.
Se eu perdesse algum fato super importante, eu ia me ferrar. A sensação que eu tinha era de estar sozinha ali. A super-repórter da super-Rede-Globo não me ajudaria, e a magrela da CBN tinha chegado completamente atrasada. A loirinha de olhos verdes e global estava andando em uma plataforma anos 60 e olhando para o teto o tempo inteiro. Não sentiria nem o meu cheiro na frente dela. Então eu teria mesmo que depender só de mim. E assim foi.
Depois de horas, descobri o release com todos os gráficos para a minha matéria. Nessa hora, misto de felicidade e raiva. Se eu tivesse conseguido o maldito papel às 14h, meu trabalho seria esperar o secretário, pegar a fala dele e ir embora em busca dos personagens. Mas aí não teria graça!
Ainda esperei um tempo ali, mas vi que nada mais aconteceria. A CBN estava com a matéria quase pronta e a menina da Globo não parava de se maquiar. "Câmera, este batom ficou bom? Não gostei".


Cansei e fui ao PS. Para isso, uma longa jornada no maior calor do mundo. O HB é ENORME. A sala de espera do atendimento do hospital tem um cheiro diferente, um clima diferente, nunca tinha ido lá. As macas saem das ambulâncias com pessoas muito mal e passam na frente de todo mundo que espera a vez de ser atendido. Até quem quer tirar uma simples espinha da testa acaba vendo cenas constrangedoras. São muitas pessoas sofrendo. Olhei em volta e vi gente com nariz e boca enfaixados, que não podiam dar entrevista, pessoas chorando porque os parentes estavam mal, e de repente, a luz: uma única moça sentada, tagarela, com o tornozelo inchado. Eu precisava de alguém que tivesse caído e machucado a perna, o braço, o que fosse. E ela era esse alguém.
"Trabalho com vendas, estava andando em um lugar sem calçada, torci o pé e caí. Me estabaquei", contou Maria Batista, 26 anos, rindo.

Mas era fraca. Personagem fraco. Eu tinha que achar outro.

Nisso, chega a menina da CBN esbaforida: "Você conseguiu personagem?"
- Um bem fraco.
- Eu preciso de um. Olha aquela ambulância!
E ela invade a porta de trás do carro, onde tem duas moças: uma deitada meio inconsciente e uma sentada, desesperada, assinando a papelada do hospital. A repórter, sem cerimônia, pergunta para a moça esbaforida:
- Qual o problema dela?
- Ela passou mal e caiu. Acordou sem falar nada com nada.
- Você imaginava que uma queda causaria isso?
- Mas ela passou mal e caiu.
- Fala aqui no gravador que você não imaginava que uma queda poderia causar um transtorno deste tamanho.
- Eu não imaginava que uma queda poderia causar um transtorno deste tamanho.
- Obrigada.
Enquanto isso, a moça deitada e alheia me olhava e se esforçava para entornar a boca e sorrir, mas não conseguia. O que dirá falar algo. Ainda conversei com a irmã que cuidava ela, mas resolvi dar privacidade. Aquele também não era um personagem decente.

Insistente, fui até a porta do PS, onde só os autorizados entram e decidi seguir um homem de muleta e pé quebrad que tinha a-ca-ba-do de entrar. Ele seria o melhor personagem de todos. Fui barrada.
- Guarda, só quero falar com aquele moço, por favor.
- Dá a volta no hospital e vai encontrar ele saindo ali do outro lado. (Como já disse, o HB é ENORME)
- Uma ova! Por favor, deixa eu passar??
E nessa hora passa o produtor, a repórter e o câmera da Globo. Eles nem me viram. Porque não olharam para o lado.
- Moço, por que eles podem e eu não? Ó, moço, ó: Correio Bra-zi-li-en-se.
- Eles têm autorização.
- Como eu faço pra pegar essa autorização?
- Dá a volta no hospita....
- Obrigada.

Olhei em volta e peguei o celular para chamar o carro do jornal. Mas naquela última olhadela para tirar o peso na consciência, me deparo com uma moça e dois meninos completamente ralados... "Coisa de criança", pensei. "Eles devem ter caído", pensei animada. (Essa felicidade em cima da tristeza dos outros é comum na profissão). Dito e feito: eles tinham caído de bicicleta naquela tarde mesmo e, segundo a minha apuração, queda de bicicleta era motivo de atendimento diariamente no hospital. Achei meus personagens!
"Só me lembro que a gente descia uma ladeira bem rápido e meu irmão perdeu o controle da bicicleta e batemos a cabeça no chão", contou o menorzinho, Natanael Guimarães. Morri de dó. Conversamos ainda por cinco minutos, perguntei tudo que eu precisava e logo pensei: "Pena que estou sem fotógrafo", já imaginando a matéria no jornal. Total foca.

Voltei pra redação animada e me sentindo produtiva depois de 10 horas trabalhando. Eu tinha feito um podcast com o secretário, tinha adiantado a matéria por telefone para o site e só me restava sentar e escrever as minhas 30 linhas. Estava calma, terminei de fazer o Grita Geral e comecei a escrever a curta -- o que seria no final das contas toda a minha apuração da tarde: uma materinha de 12 linhas.
Demorei uma hora pra escrever tudo, com a quantidade de número, um texto confuso e repetição de palavras sem sinônimos.
Mando pro editor.
Péééééém.
Volta e refaz, mas desta vez, com seis linhas.
Sem pensar que isso fosse possível, fiz. Mandei pro editor. Ele editou, ele foi indiferente, ele me liberou.

Depois saí correndo pra aula. Afinal de contas, é lá que eu aprendo a fazer jornalismo de verdade, right?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Nada de Cidades por um dia.



Eu já tinha ido ao Congresso algumas vezes. Uma deve ter sido nessas visitas de escola há quase uma década. Voltei ano passado pra trabalhar, se não me falha a memória... Fui de apêndice da minha chefe na época. Ela ia fazer uma grande matéria pro Ministério da Defesa e eu ia "aprender com quem sabe".
Não prestei atenção em quem ela entrevistava, confesso. Queria ver quem os jornalistas de redação mesmo estavam entrevistando, o que estava acontecendo no tapete verde e no azul. Olhava meio embasbacada como aquele lugar é ENORME, bonito e cheio de carpete. Quanta coisa acontece ali todos os dias...
Enquanto minha chefe entrevista o Jucá. O Romero, que na época eu não sabia quem era, eu fiquei viajando no corredor das Comissões. Até que eu me deparo com um rosto conhecido, sentado em uma sala de comissão vazia, lendo um papel que havia sido distribuido ha pouco por uma assessora qualquer. Eu conhecia aquele cara de algum lugar... Cabelos bem pretos, terno, cara mesmo de político. Eu não queria ficar encarando, mas também não conseguia pensar em coisa alguma. Quem é ele? De onde eu conheço esse cara? A chefe e a fotógrafa passam por mim, me agarram pelo braço e corremos atrás de um outro senador qualquer para dar a opinião sobre um assunto qualquer. No último instante, quando ele olha pra mim...
Era o Collor. Só o Collor.
Sentado ali, com toda aquela história política e jornalística por trás. Quantas coisas eu já sabia dele, tinha lido sobre ele, tinha visto na TV... e agora eu estava ali, na cara dele. Ok, sem grandes deslumbramentos...

A outra vez que fui ao Congresso doi sozinha, mas também pelo MD. Eu ia acompanhar um grupo de adidos militares e aproveitei para ver de perto também o Salão Verde, o Azul, os plenários e o Túnel do Tempo. Vi pela primeira -- ainda a únca -- vez o desenho da bandeira do Brasil no carpete do Senado, vi uma das cenas clássicas de um senador falando pra ninguém e esbarrei com o Supla-pai.
A matéria ficou legal, tirei foto com as esposas e filhas de adidos e fui pra casa satisfeita.

E então só voltei ao Congresso ontem. Não sabia se ia conseguir sair do trabalho à tempo, mas o Thadeu me incentivou a conhecer de verdade the dark side of the force. E lá fomos nós, com a desculpa de fazer um trabalho para a faculdade, mas na verdade para ele me mostrar como as coisas funcionam. Às 16h30 ele me buscou na frente do Correio. Ele me alertou que precisava de força física. Não acreditei. Até chegar no estacionamento, longe à beça do Congresso. Eu pensava: Vou matar o Thadeu. Olha o tanto que ele quer que eu ande!!
Era um desses dias nublados, mas calorentos. Estávamos pingando. Até que, como um oasis, surge uma tendinha com banquinhos. Sentamos ali e, em menos de cinco minutos, uma van parou nos oferecendo ar condicionado, bancos confortáveis e som nenhum até a Câmara. Quase beijei os pneus.

Chegamos à Câmara dos Deputados, a concha virada pra cima. O Thadeu falou a senha mágica, eu dei a minha carteira de identidade. Entramos e fizemos o mesmo na passagem do Salão Verde paro Azul -- Câmara/Senado. Fomos ao cafezinho, mas pedimos duas águas; ele me explicou por onde os jornalistas entravam, por onde os deputados entravam e saíam e como a gente deveria agir: "Temos que andar", ele repetia. Eu pensei que tivéssemos que ficar ali perto da sala onde a CPI dos cartões estava sendo discutida e logo sairia algum senador louco por uma entrevista. Mas não demorou muito para a opção do Thadeu vencer. E a minha, claro, perder. Andando de um lado para o outro, víamos nada mais que jornalistas e visitas, então resolvemos ocupar o tempo com conversinhas bestas. Mas tudo foi interrompido no Túnel do Tempo. Ideli Salvatti, a líder do governo no Senado! "Vamos correr!". Ela tinha parado tudo para responder a Record, mas nós dois tivemos que segui-la até o elevador, ela estava "com pressa". Meu gravador estava sem uma pilha -- a coisa mais esquisita do mundo -- então eu fingia que anotava e o Thadeu fazia o trabalho sujo de quase enfiar o aparelhinho na boca da senadora. E de fazer as perguntas, já que eu tinha planejado algumas, mas o assessor dela me tirou do ritmo:

"Qual o seu nome?", perguntou o assessor hiperativo, com um terno marrom burro quando foge. "Juliana", respondi e voltei minhas atenções pra ela. "Juliana de quê?". "Boechat". "Ahh". "De onde você é?", ele perguntou. Isso, no jargão jornalístico, significa: "Em qual jornal, revista e afins você trabalha?". "Correio Braziliense", respondi. Ele deu um sorrisinho e me deixou prestar atenção na entrevista de novo, mas aí eu já tinha perdido o fio da meada e o Thadeu logo terminou as perguntas. Aí foi a vez do Thadeu enfrentar o questionário. "De onde você é?", o assessor de novo pro meu amigo engravatado. "Da Carta (Capital)", ele. Depois de três tapinhas nas costas, ele olha pra gente e faz movimento com os dedos: "Depois passem lá no gabinete pra gente conversar".

A gente saiu rindo. Somos meros estagiários e mesmo em trabalho para a faculdade, falamos aqui tudo sem pensar. E o resultado final acabou sendo inesperado.
Paramos ainda um tempo na porta de vidro preta onde está acontecendo a CPI dos Cartões Corporativos esperando o Arthur Virgílio sair. Mas ele, como bom líder da oposição, não deixaria o circo pegando fogo e sairia assim, do nada, não é mesmo? Então Thadeu olha pra mim: "Vamos andar!". Oh no! Reclamei, já queria sentar. Quando passamos pro Salão Verde e voltamos pro Azul, Filipe Coutinho, o estagiário de Política, fala animadasso: "Olha quem tá ali!!!". E eu, Juliana Boechat, estagiária de Cidades, atônita: "Queeeem?", olhando de um lado para o outro. Era o Álvaro Dias, um senador que pinta o cabelo de acaju. Ele era o centro das atenções no dia porque tinha confessado ser o responsável pelo vazamento do dossiê que estava acabando com a imagem da Dilma, na Casa Civil.

"Quem está ali, Thadeu?! De que partido essa pessoa é?", enquanto apressávamos o passo e eu ainda não tinha visto ninguém. "PSDB, Juliana, ELE é o Álvaro Dias". E aí corri de vez. Ele ia falar com a Globo e ninguém -- repito, ninguém -- empaca trabalhos globais. Fizemos duas perguntas.... mentira, o Thadeu fez, e nós fomos embora. A essa altura eu já tinha tirado meu crachá e, quando agradeci o tempo concedido, recebi só uma olhada de cima a baixo e um sorrisinho de "quem é você mesmo?".
A apuração para o trabalho da faculdade estava feita.
Eu estava encantada.
O nosso dia tinha acabado. Foi tão fácil falar com eles, mas seria também tão fácil nunca encontrá-los.

Experiência válida, graças ao Filipe Thadeu Coutinho. Passamos no cafezinho para uma última copada de água para comemorar.

Mas não poderia ter acontecido sem uma última parte. A mais divertida, a mais exótica: o gabinete do Clodovil, em que a porta, por si só, já fala tudo. Fica no quarto andar do anexo, pouco acessível ao povo-povo. Assim que chegamos lá, tinha três amigos engravatados tirando foto na frente de duas portas, uma amarela e uma verde. Quando eles sairam da frente, um C e um H em caixas imperiais. A sala dele fica de frente para o corredor, chamando mais atenção que já chamaria normalmente. E ali dentro fica aquele personagem looouco, com o gabinete mais decorado de todo o Congresso, que custou R$200 mil. Do bolso dele.

domingo, 30 de março de 2008

25 novas motos por dia no DF


Pauta de capa sugerida em 24.03.08

Escrito por:
Adriana Bernardes
Da equipe do Correio

Uma invasão de motocicletas transforma o trânsito no Distrito Federal. Desde 2000, em média, 25 motos entram em circulação a cada dia na capital do país. O aumento da frota nos últimos sete anos e dois meses chega a 254%. Isso representa mais do que o dobro do crescimento registrado no Rio de Janeiro. E é três vezes e meia maior do que o ocorrido em São Paulo no mesmo período.

Atualmente, 91.924 motocicletas trafegam pelas ruas e avenidas da capital do país. Há sete anos, eram 25.973 (veja quadro). Em São Paulo, o crescimento da frota (de 658.973) foi de 74% e no Rio de Janeiro (de 153.750), de 102% no mesmo período. Na cidade que tem em média um carro para cada dois habitantes e está prestes a alcançar a marca de 1 milhão de veículos, o crescimento da frota de motos só piora a situação. Ainda mais que, por serem mais vulneráveis, os motoqueiros normalmente levam a pior em caso de acidente.

Para o diretor do Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF), Délio Cardoso, o aumento do número de motocicletas no trânsito brasiliense pode ser explicado por causa das facilidades em adquirir o veículo de duas rodas. É ainda mais barato do que um carro e várias concessionárias permitem prestações a perder de vista. “O poder aquisitivo do brasiliense é um dos mais altos do país. Além disso, ainda não temos, lamentavelmente, um transporte público de qualidade”, avalia Délio Cardoso.

Ele prevê a estabilização da frota assim que o projeto Brasília Integrada for concluído. Por meio dele, o governo pretende oferecer um transporte público rápido, integrado e de qualidade, além de melhorar o sistema viário do DF. “A moto não contribui para engarrafamento. Mas exige mais cuidado do motorista”, afirma Délio.

As mudanças no trânsito são facilmente percebidas. Basta prestar atenção ao semáforo. Sempre que a luz vermelha acende , os motociclistas, a maioria com caixas no espaço do carona, trafegam pelo corredor — espaço entre um carro e outro— e param à frente dos veículos. Quando o sinal abre, eles são os primeiros a arrancar. A cena ocorre nos principais cruzamentos do Plano Piloto, Taguatinga, Ceilândia e Samambaia. É a prova de que os serviços de motoboy ganham a preferência de empresas de telentrega. Trafegar pelo corredor, no entanto, é proibido pelo Código de Trânsito Brasileiro. Mas não é a única imprudência.

De cada 10 motos apreendidas pela fiscalização do Detran-DF, quatro são por falta de habilitação do piloto. Há nove dias, um motoclista sem carteira atropelou e matou o comerciante Keiji Kubota, 68 anos, que atravessava em uma faixa de pedestres em Sobradinho II. A neta da vítima, de apenas 7 anos, assistiu a tudo.

Ziguezague
O Correio percorreu a área central do Plano Piloto, de Taguatinga e a Via Estrutural na última sexta-feira. Flagrou motociclistas ziguezagueando entre os carros, em manobras de retorno proibido e trafegando em alta velocidade. Eram 8h50, quando os policiais da Companhia de Polícia Rodoviária Militar se preparavam para liberar a Estrutural sentido Plano Piloto-Taguatinga. Enquanto os carros faziam fila um atrás do outro, as motos se aglomeravam na frente. Às 9h, eram 15 no total. Entre eles, o motoboy Euzelton Lucas Viana, 27 anos. Ele vendia jornais no semáforo, mas, há um ano, decidiu trocar de ramo. “Este (motoboy) é o mercado que mais cresce. Diariamente, a gente vê muitos acidentes. Mas quem tem atenção, não se machuca”, afirmou.

Conversar com motoristas e motociclistas sobre a convivência no trânsito implica ouvir trocas de acusações. O comerciante Carlos José Vieira 37 anos, anda mais cauteloso. “Esses motoqueiros andam entre os carros. A maioria dos acidentes que a gente vê por aí, é por conta disso. Eles não costumam respeitar a sinalização”, reclamou. “O problema é que o motorista não respeita a gente. Acha que porque o carro é maior, pode fazer o que quiser e você tem que se virar para não bater nem se desequilibrar, desabafou o pintor Elias Andrade da Silva, 30, morador do Setor P Norte. Há um ano, ele usa a moto como meio de transporte. “É mais rápido e barato que o carro. E de ônibus não dá”, completou.

Entre os motociclistas, existem os que usam a moto como meio de transporte, os que dependem dela para conseguir o sustento e os que são apaixonados pelo veículo. O professor de educação física e empresário Wilson Phillip, 44 anos, se enquadra no último perfil. Chegou a ter quatro motos na garagem. Sofreu cinco acidentes de trânsito, em três deles, só usava sunga e tênis. A causa foi a imaturidade, a inexperiência e a irresponsabilidade. Eu corria muito. Achava que não ia dar tempo de chegar aos lugares. Pegava a moto e acelerava, confessou. O mais grave deles resultou na lesão de um músculo responsável pelos movimentos das mãos. Wilson demorou quase três meses para recuperá-los.

A paixão de Wilson por motos só não falou mais alto que o amor pelas filhas Camila, 18 anos, Yasmin, 15 e Bruna, 4 anos. Por elas, decidiu vender as motocicletas. A última delas, há quatro anos, quando Bruna nasceu. Mas o capacete ele guarda até hoje. “Não vendo, não empresto e não dou”, brincou. Wilson admite que está tentado a voltar a pilotar. “Mas só se a minha mulher deixar. Ultimamente está ainda mais arriscado do que no passado. O trânsito está muito pesado. Se eu tiver outra moto, será para matar a saudade de vez em quando”, disse.

Acidentes aumentam
O crescimento da frota de motos também piora as estatísticas de acidentes e de mortes de motociclistas no trânsito do Distrito Federal. Em 2000, a equipe de resgate do Corpo de Bombeiros atendeu 1.076 chamados envolvendo motoqueiros. Esse número subiu para 5.837 no ano passado — um crescimento de 442,4%. As mortes também ficaram mais freqüentes: aumento de 114% no mesmo período.

Uma das vítimas da carnificina que se tornou o trânsito das motocicletas é a família Leal. O gerente comercial Antônio Celso Leal, então com 40 anos, trafegava pela pista de ligação do Eixão Sul com o balão do Aeroporto, quando o carro da frente freou bruscamente para fazer um retorno. Celso bateu na traseira do veículo. Fraturou a costela e teve um dos pulmões perfurado. Morreu três minutos após a colisão.

A tragédia ocorreu há cinco anos. A funcionária pública Selma do Rego Leal, 38, perdeu o marido no dia em que o filho caçula completava 7 anos. “Ele veio em casa só para almoçar com a família e comemorar o aniversário do mais novo”, relembrou. O motorista do carro era um homem de 83 anos, que, segundo a família, não prestou socorro. Uma testemunha anotou a placa e ele foi julgado e condenado. “Só nós perdemos nesta história toda. De tudo, fica só a saudade”, desabafou.

Na noite de sexta-feira, mais um motociclista perdeu a vida nas pistas do Distrito Federal. Por volta de 22h, Ademir Silva Souza, de 26 anos, conduzia a Honda Titan KS (KFA-3545/DF), no terminal de cargas do Setor de Indústria e Abastecimento (SIA). Segundo a Polícia Civil, Admir perdeu o controle da moto e colidiu no meio-fio. Ele estava de capacete, mas não resistiu aos ferimentos. As causas do acidente são investigadas pela 8ª DP (Estrutural/SIA).

Formação ruim
O diretor do Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF), Délio Cardoso, acredita que parte do problema se deve à má formação dos motociclistas. “Ele tira carteira por necessidade, mas não sai da auto-escola preparado. O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) não nos permite incrementar novas exigências ao exame prático”, disse.

O professor Joaquim Aragão, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), avalia que o crescimento da frota de motos é um voto negativo da população ao transporte coletivo de Brasília. Na opinião dele, as autoridades de trânsito terão de estabelecer novas gestões de circulação para diminuir os acidentes e as mortes que envolvem motoqueiros. “Há que pensar no estreitamento de uma faixa destinada exclusivamente aos motociclistas”, sugeriu. Mas, para ele, a principal arma do poder público é o investimento na educação. “É preciso incrementar as campanhas educativas para motociclistas e motoristas. Eles precisam entender que a convivência deve ser harmoniosa”, concluiu Aragão.

Em uma reunião da Associação Nacional dos Detrans, na última quinta-feira, ficou decidido que a emissão da carteira de motociclista deve ser mais rigorosa. Assim como a transferência de pontos da Carteira Nacional de Habilitação. A proposta será formulada por Délio Cardoso — que também é diretor regional da Agência Nacional dos Detrans — e entregue ao deputado federal Hugo Leal (PSC-RJ), relator do projeto de lei que deve modificar o Código de Trânsito Brasileiro. (AB)

Exigências da lei
O serviço de motoboy acaba de ser regulamentado no Distrito Federal. A medida vai mudar a rotina de 25 mil trabalhadores. Se, por um lado, o reconhecimento da profissão é uma conquista para quem encontrou no motociclismo um meio de subsistência, de outro, possibilitará ao poder público controlar o setor.

As exigências são rigorosas e devem tirar do mercado quem trabalha no improviso. O colete, o capacetes e as motos serão padronizados. As regras já estão valendo, mas o prazo para adequação é de seis meses. As exigências estão detalhadas na edição de 19 de março do Diário Oficial do Distrito Federal. Por meio do Decreto nº 28.880, de 18 de março, o governo definiu que o sistema de transportes e prestação de serviços com a utilização de motocicletas, ou moto-frete, “é um serviço público com veículo de aluguel”. Sendo de aluguel, a moto deverá ter a placa especial, pintada nas cores vermelha e branca. Caberá ao Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF) fazer o registro do veículo tipo motocicleta na categoria aluguel, conforme regulamentação da Resolução nº 219/2007 do Conselho Nacional de Trânsito (Contran).

Para trabalhar como motoboy, o motociclista terá de conseguir dois documentos: o Certificado de Qualificação de Motociclista e a Licença Moto-frete, ambos expedidos pela Secretaria de Transportes. O primeiro é um atestado de que o motociclista está habilitado a atuar no serviço de moto-frete. O segundo é uma autorização do governo para que ele exerça a função no DF.

Colete, capacete e antena
O motoboy terá de usar colete e capacete diferenciados dos demais. A moto deverá ter uma antena anti-cerol. E o profissional só poderá transportar produtos que caibam dentro do baú da motocicleta. O tamanho do baú será padronizado. Deve medir no máximo 60 cm de largura por 70 cm de altura. O comprimento não poderá ultrapassar a extremidade traseira do veículo. Já a grelha — suporte de fixação do baú — deverá ter largura máxima de 60 cm e comprimento que não ultrapasse a extremidade traseira da moto (veja arte acima).

Pouco mais de uma semana após a publicação do decreto de regulamentação do serviço, o motoboy Rodrigo Lopes da Silva, 35 anos, já desfilava com o colete diferenciado. “Isso aqui dá 100% de visibilidade. É muito melhor”, afirmou. No entanto, Rodrigo desconhecia as novas regras para a motocicleta, baú e capacete. “Isso aí não ouvi dizer, mas acho certo”, disse.

Na avaliação do vice-presidente do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do DF (Sindmoto), Luiz Carlos Galvão, a regulamentação vai mudar radicalmente o setor. “Quem quiser ficar, ou entrar no mercado, vai ter de se preparar. Fazer curso. Isso é muito bom”, avaliou. Os coletes e capacetes diferenciados vão destacar o profissional do usuário comum. “Se acontecer qualquer coisa, estará claro, para quem quiser ver, qual das duas categorias fez bobagem”, completou. O governo doou os primeiros 1 mil coletes — patrocinados pelo Branco de Brasília — ao Sindmoto. Eles estão sendo distribuídos entre os filiados.

O governo também terá de se preparar para cobrar dos motoboys as regras do decreto. O secretário de Transportes, Alberto Fraga, explicou que caberá à sua secretaria, licenciar, gerir e administrar o serviço de moto-frete. O DF-Trans terá a responsabilidade de fiscalizar o cumprimento das exigências. “Em 6 de abril teremos concurso com 200 vagas para o DF-Trans. Precisamos definir uma área específica para as vistorias aconteçam” completou Fraga. (AB)

sábado, 29 de março de 2008

No tempo dos quintais




Juliana Boechat - Estagiária do Correio

Assim que Lucas Victor da Silva, 12 anos, chega da escola, ele almoça, faz o dever de casa e vai para a rua brincar com os amigos. O grupo de seis garotos gosta de jogar bola, soltar pipa e andar de carrinho de rolimã. Ele tem computador, mas acha sem graça ficar em casa e conversar com os amigos pela internet. E então, inventa as brincadeiras e constrói junto com os colegas e o pai os brinquedos de rua, como antigamente.

Pipa, carrinho de rolimã e bete (jogo infantil originado do beisebol) são as suas especialidades. Ele até se compara com um dos personagens mais famosos de Ziraldo, o Menino Maluquinho, que brincava na rua, criava brincadeiras e despertava curiosidade nas crianças e saudade nos pais, que viviam assim na infância. Essa realidade pode parecer demodê para alguns, mas ainda é possível encontrar crianças que preferem brincar na rua a ficar dentro de casa no computador.

As brincadeiras de antigamente são divertidas e baratas, mas com o passar do tempo foram trocadas por computadores, videogames e tecnologias caras. Para Lucas, passar a tarde na rua é, além de um momento de diversão, um grande passa tempo: “Quando saímos para brincar, ficamos quase o dia inteiro na rua. Reúno todos os meus amigos aqui perto e jogamos bola, soltamos pipa, andamos de patinete e nos divertimos muito”, conta.

Criatividade
Ele ainda vai mais além e monta os brinquedos com peças que encontra perto de casa ou que acha em algumas lojas no comércio, como foi o caso do patinete de rolimã. “Achei madeiras na minha casa, meu amigo pegou umas rodinhas na borracharia e meu pai ajudou a pregar as tábuas para criar o rolimã”, conta como se fosse fácil. Depois foi só reunir os amigos no alto da rua e descer com o vento no rosto, a parte preferida da brincadeira.

Também foi dele a idéia do material para jogar bete. O kit vendido em lojas é composto por dois tacos de madeira e duas casinhas, também de madeira, industrializadas e bem bonitinhas. Durante o jogo, cada dupla tem que derrubar a casinha do adversário com o rebate da bola, normalmente não muito dura para não machucar as crianças.

Quando Lucas e os amigos resolvem jogar bete, eles pegam dois cabos de vassoura, uma bolinha qualquer e montam as casinhas com garrafas pet de refrigerante. Lucas sempre gostou de montar os brinquedos, mas antes disso costumava fazer pulseiras em casa com a mãe e a tia em dias chuvosos em que ele não podia sair. Depois foi só juntar o útil ao agradável.

Os modernos
Mas encontrar um Lucas por aí pode não ser tão comum como já foi um dia. Carrinho de rolimã virou patinete motorizado, pular corda é a última opção das meninas e brincadeiras com elástico e pião ficaram realmente fora de moda. Para ser cool hoje, tem que ter os videogames e computadores modernos e saber conversar tudo sobre tecnologia.

Enquanto pais e avôs têm que ler manuais de aparelhos tecnológicos, a geração atual age como se já nascesse sabendo. Clara Maul Canedo Xavier, 9 anos, vive entre o mundo das brincadeiras de rua e da magia dos computadores. As conversas dos amigos de escola são sobre videogame e outros jogos virtuais. Mas mesmo que ela tenha um computador e saiba usá-lo perfeitamente, prefere ir à rua brincar com as amigas.

Talvez essa não seria a realidade de Clara se a mãe dela, apaixonada pelas brincadeiras que teve na infância, não tivesse dado um empurrãozinho. “Na minha infância, esses brinquedos e brincadeiras tinham grande valor, então tento passar um pouco dessa realidade para ela”, conta a mãe Fernanda. “Se brinco no computador, fico sozinha. Prefiro ir para a rua com meus amigos”, explica Clara.

Fernanda deu a Clara como presente do Dia das Crianças do ano passado um conjunto de cinco-marias. O jogo é muito simples, mas requer concentração e testa reflexos. São cinco saquinhos recheados de grãos ou, em caso de improviso, servem até mesmo pedrinhas. A pessoa joga um dos saquinhos para cima e, enquanto ainda está no ar, pega outro pacotinho no chão bem rápido, em tempo de agarrar o que está no ar, antes que toque no chão. O grau de dificuldade aumenta toda vez que as cinco-marias são capturadas.

Convivência
Para as crianças, também faz parte da diversão montar os brinquedos, organizar as brincadeiras e aí sim brincar. Lucas constrói os brinquedos, mas Clara compra todos prontos. Há opção para todo mundo. Várias lojas em Brasília se especializaram em brinquedos feitos de pano e madeira e que relembram a “velha infância”. A dona de uma das lojas, Valéria Grassi, explica que tem prazer em proporcionar o resgate da imaginação dos jovens.

“Hoje em dia, as crianças ficam adultas cada vez mais cedo, elas ganham brinquedos já prontos e não precisam se esforçar em nada”, analisa. O professor do instituto de psicologia da Universidade de Brasília (UnB), Áderson Luiz Costa Junior, concorda com Valéria e acrescenta que, para ele, a maior qualidade dos brinquedos e brincadeiras antigas é a convivência em grupo.
As brincadeiras vão além da diversão, são verdadeiras lições de vida. “A oportunidade de se envolver com esses brinquedos estimula a socialização da criança e trabalha a interação social”, explica o psicólogo. Segundo ele, desde criança a pessoa que se diverte dessa maneira aprende a perder, a criar regras, a esperar, além de identificar modelos diferentes de comportamento e achar a própria personalidade.

domingo, 2 de março de 2008

Temporal inunda e pára capital




























Juliana Boechat - Estagiária do Correio

A Avenida das Nações parou ontem, por volta das 18h. Devido à forte chuva do final da tarde os transtornos no trânsito atingiram todo o Plano Piloto, desde o viaduto do aeroporto, próximo à Vila Telebrasília, a vias e quadras das asas Sul e Norte. Dois ônibus atolaram e impediram a passagem dos carros perto do Setor Policial Sul, 115 Sul e a L2 Sul. A água subiu o meio-fio e chegou na metade das rodas de um dos ônibus, que parou de funcionar no meio do caminho com 60 pessoas a bordo.

Outro ônibus cheio de passageiros tentou desviar o caminho e passar por cima do canteiro alagado, mas atolou. Motoqueiros tentavam enfrentar a grande quantidade de água, mas seis das 13 motos falharam. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) informou que a chuva durou cerca de três horas e que transtornos como os de ontem devem continuar até as primeiras semanas de março. Por causa da tempestade, os eixinhos, o Eixão e a L4 ficaram engarrafados.
Por ser a principal via de ligação entre algumas cidades e o Plano Piloto, a Avenida das Nações parou e provocou retenções de tráfego em outras vias de fuga para o centro da capital. O ônibus que ficou parado no meio da água levava os passageiros da Esplanada dos Ministérios ao Riacho Fundo 1. Os passageiros esperaram mais de uma hora até outro veículo da empresa chegar para continuar o trajeto. Uma grávida e um homem passaram mal dentro do carro cheio.

Enquanto isso, o engarrafamento ao longo das vias que têm ligação com a Avenida das Nações começaram a se formar. Na L4, os carros formaram uma fila de 5km que acabava perto do Clube Nipo, no Setor de Clubes Sul. Motoristas impacientes encontravam jeitos de sair do engarrafamento e se arriscavam pela contramão. Marta de Godoy Bastos, 40 anos, disse ter ficado 37 minutos no engarrafamento, quando decidiu ir para o outro lado da via.

Escoamento
Em outros pontos do DF a chuva também causou transtornos. No Guará, uma moto e um carro colidiram, mas não houve feridos. No Eixo Monumental, um carro também bateu em uma moto, mas ninguém se machucou. Moradores de cidades como Estrutural, Taguatinga, Guará, Sobradinho, entre outros, também enfrentaram alagamentos e retenções de trânsito.

O Secretário de Obras, Márcio Machado, explica que o motivo dos alagamentos é que a rede de drenagem pluvial é insuficiente para 1 milhão de quilômetros de vias urbanas e 5 mil km de rede de drenagem. “Ao longo do tempo, a quantidade de construções aumentou e aos poucos o solo ficou impermeabilizado. Precisamos de outras formas de escoar a água”, diz. Obras para melhorar o sistema de escoamento da água das chuvas devem começar até agosto.

Brasiliense morre em cachoeira




Juliana Boechat - Estagiária do Correio

O secretário da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados, Fernando Luiz Cunha Rocha, 48 anos, morreu ontem, às 11h, num acidente em Alto Paraíso (GO). O secretário estava de férias com a família na cidade, quando resolveu visitar uma das quedas d'água mais famosas da região, a Cachoeira Raizama. Fernando, a esposa, a mãe e os dois filhos chegaram ontem de manhã cedo e logo saíram para passear. Nas pedras mais altas do ponto turístico, Fernando pulou na água para tirar foto, mas na volta escorregou e desapareceu na queda d’água de 50 metros de altura. O passeio virou uma tragédia. Fernando foi levado pela correnteza e caiu de cabeça em uma região cheia de pedras. Ele morreu na hora.

O Grupo de Guias de Alto Paraíso, com prática de resgates desse tipo, retirou o corpo do local antes que fosse levado pela correnteza. O sargento do Batalhão de Busca e Salvamento do Corpo de Bombeiros, Luiz Antônio Aquino Caetano, chegou ao local para auxiliar o resgate e encontrou a família do secretário já a caminho do Instituto Médico Legal (IML) de Formosa (GO). Ele explica que nessa época do ano, os acidentes se tornam mais freqüentes por causa da quantidade de chuva. “Resgatamos pessoas que caem no rio e não conseguem sair devido à grande força da água”, relata. Mas diz que em 2008 ainda não tinha ocorrido nenhum caso de queda nas cachoeiras de Alto Paraíso.

No verão, os cuidados dos turistas nas cachoeiras próximas ao Distrito Federal devem ser redobrados. Segundo o chefe de comunicação dos Bombeiros, major Rogério Soares, os banhistas devem se informar se não está chovendo na cabeceira do rio em que vão se banhar. “Se chove no começo do rio, o volume de água aumenta e a força é muito maior, formando as trombas d’água”, explica. A queda do Raizama tem 50 metros de altura e está localizada na fazenda de mesmo nome. O local fica perto do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, próximo à cidade de São Jorge a 239 km de Brasília. A cachoeira costuma receber pessoas que querem acampar, praticar rapel ou esportes radicais, como canoagem.

Fernando Luiz tem uma casa em São Jorge onde costumava passar férias e feriados. Ele trabalhava na Câmara dos Deputados havia cerca de 30 anos, e se tornou secretário da Comissão de Relações Exteriores em 2001. Uma colega de trabalho que não quis se identificar disse que os funcionários do gabinete do secretário ficaram muito abalados com a notícia. “Trabalhamos juntos há sete anos, eu gostava muito dele. Era uma pessoa boa e competente, que conseguia manter toda a equipe unida”, lembra.

O chefe da comunicação dos Bombeiros, major Rogério Soares, diz que os cuidados para quem visita cachoeiras valem para qualquer época do ano. Segundo ele, as pedras ao redor das quedas d'água costumam ser muito lisas, limpas e escorregadias, e ficam ainda mais perigosas com água. Os banhistas não devem entrar no rio sozinhos nem deixar crianças desacompanhadas; também não é seguro mergulhar de ponta, pois o movimento de água modifica o relevo do rio. Se alguém estiver se afogando, o resgate deve ser auxiliado por uma corda ou um galho e, se a pessoa não souber nadar direito, não deve pular na água para ajudar.

Para acreditar no sonho

Juliana Boechat - Estagiária do Correio

Um espaço democrático à espera do artista. Assim pode ser resumido o tradicional ponto de cultura que a capital da República ergueu em 1975, na 508 Sul, e que, 21 anos depois, ganhou o nome de Espaço Cultural Renato Russo. Uma homenagem muito especial da cidade a um dos maiores poetas do rock brasileiro, que despontou para o sucesso em Brasília, onde morou desde os 13 anos de idade e colocou o Planalto Central no topo das paradas de sucesso, com músicas cantadas por todo o país, como Eduardo e Mônica, que conta a história de dois jovens da capital federal.

Localizado na Avenida W3 Sul, numa das quadras mais antigas da cidade que o músico gostava de descrever como um lugar único, o espaço cultural atraiu cerca de 20 mil pessoas no ano passado, com 141 eventos que incluíram exposições, espetáculos diversos, oficinas, peças teatrais, palestras e lançamentos de livros. O prédio tem 13 salas, que abrigam galerias, galpões, salas de teatro, uma gibiteca e a biblioteca.

O visitante dispõe de duas entradas principais, uma pela W3 e outra, na W2. Mas, em qualquer uma que escolher, vai se deparar com uma grande galeria, onde se encantará com exposições de várias partes do mundo. Se olhar para cima, verá o extenso banco de madeira que contorna o mezanino onde jovens costumam aproveitar o sossego para ler. Por uma escada no canto da galeria chega-se a uma varanda voltada para a W3. É ali, em meio a corredores tortuosos e paredes arredondadas que ficam a diretoria, a gibiteca, a biblioteca e a musiteca.

A proposta é democratizar a arte. “Aqui não há curadoria. Se temos espaço e o artista, disposição, expomos o trabalho dele. Não julgamos se algo é bom ou não é”, explica o fotógrafo Rui Faquini, que em 2007 assumiu a direção do espaço. Se depender do diretor, o espaço vai retomar os ideais dos primeiros anos de criação e valorizar as variadas manifestações e o conceito da arte. Ele conta que, em 1977, quando o espaço ainda engatinhava, quis mostrar, no local, que o que realmente importa é o conceito da arte e não a técnica para fazê-la. Para provar que era possível, Faquini ministrou uma oficina de fotografia sem máquina fotográfica. Bastava uma folha de papel com um quadrado recortado no meio e, com os olhos no espaço vazio, os alunos treinavam o enquadramento e a observação. “Com o domínio do olhar é possível fazer qualquer coisa”, afirma o diretor.

Idéias diferentes
No espaço cultural é possível ensaiar peças de teatro, participar de rodas de discussão, fazer exposições e apresentações. Segundo Faquini depois de 31 anos de criação o espaço ainda mantém os princípios de democratizar a arte e aceita qualquer tipo de manifestação cultural, da mais simples à mais elaborada. De acordo com a coordenadora Johanne Madsen, o espaço está pronto para receber propostas diferentes, como a do grupo de teatro que pediu para usar o local nas madrugadas, durante a semana. “Nós abrimos as portas para eles”, conta, satisfeita. Com essa filosofia, o espaço mantém vivo o pensamento de Renato Russo, que dizia: “Nunca deixe que lhe digam que não vale a pena acreditar no sonho que se tem”.

Muito procurado pelo público, o lugar sempre atrai, com exposições de artistas conhecidos ou iniciantes. Um dos lugares mais visitados é a gibiteca, com mais de 2,5 mil gibis cadastrados e outros 10 mil guardados por falta de espaço ou por ainda não estarem cadastrados. “Muitas crianças carentes vêm aqui. Eu lhes ensino a cuidar do material e a escutar o que os colegas têm a dizer. O resultado é maravilhoso”, orgulha-se a aposentada do Ministério da Cultura Zinaide Lustosa Elvas Nogueira, 57 anos, que ganhou o nome de Rainha da Gibiteca pela dedicação ao trabalho no local.

Sempre movimentado, o espaço também abriga grupos de dança, teatro e oficinas. A diretora teatral Bárbara Tavares reuniu os amigos Zizi Antunes, Nei Cirqueira e Silvia Paes para montar a peça infantil Pelega e porca prenha na mata do pequi, prevista para estrear em março. Como a peça precisa e um galpão alto para apresentações com cenários de pano, a Sala Multiuso surgiu como o local perfeito para o trabalho. “Sempre que mandei o projeto pedindo um horário para usar a sala fui atendida”, conta Bárbara. Sem o apoio do espaço cultural, eu não conseguiria produzir essa peça. É um incentivo muito bom para quem está começando”, reconhece.