sexta-feira, 6 de junho de 2008

"A filha que nunca tive"


Juliana Boechat - Estagiária do Correio
Caderno especial Taguatinga 50 anos.
Foto: Marcelo Ferreira - CB

Relato Elisa Celeste Vieira, dona da primeira casa de alvenaria do Distrito Federal

"Cheguei ao Brasil em 1951.Nasci e vivi em Portugal até que meu marido, Abílio Martinho, resolveu sair em busca de novas oportunidades de trabalho. Mudamos para o Rio de Janeiro, mas, como meu marido era azulejista e muito bom com obras, correu para o centro do Brasil assim que soube da construção de Brasília.Eu só vim para a Cidade Livre em 1956. Ganhamos um lote do governo e um barraco de madeira, como todo mundo.Mas encontrávamos sempre lagartos e cobras dentro do barraco e meu marido comprou um novo lote na QNA. Construiu uma casa com cimento e tijolos, a primeira de alvenaria do Distrito Federal.Era uma verdadeira mansão. Atrás da casa, fizemos um poço artesiano com 20m de profundidade.Moramos lá por dois anos e logo nos mudamos para construir um novo prédio de alvenaria para Abílio ter a padaria que sempre quis. Era muita coragem investir em uma cidade que não existia. O pequeno prédio na CSB 6, onde moro até hoje, também foi uma das primeiras construções de alvenaria da cidade. Taguatinga é a filha que eu nunca tive."

Em ritmo acelerado


Juliana Boechat - Estagiária do Correio
Caderno especial Taguatinga 50 anos.

Taguatinga nasceu em 5 de junho de 1958. Lucio Costa havia planejado uma cidade-dormitório para os pioneiros que erguiam a nova capital do Brasil. Mas não imaginava que em pouco tempo o cerrado daria lugar à localidade mais populosa do Distrito Federal. Naquela época, desbravadores de várias partes do país, nordestinos na maioria, chegavam ao Planalto Central em busca de emprego. Três meses antes da inauguração de Taguatinga, o maranhense Nenesio Aragão Duarte, 69 anos, mudou-se para a região. A partir de então, a cidade e a família de Aragão cresceram juntos.

Nenesio lembra o que viu quando chegou: "Era muita poeira e mato. Tinha quatro tratores abrindo ruas, uma barraca de lona com uma placa da Administração de Taguatinga e uma caminhonete amarela estacionada". A Novacap recrutava funcionários do governo e o maranhense foi um dos selecionados. Eles tinham que cadastrar pessoas transferidas da avenida W3 e da Vila Amauri, que acabou tragada pelas águas do Lago Paranoá, para os alojamentos provisórios da futura cidade. Mas não foi fácil. "Ninguém queria morar no meio do mato, sem conforto algum. Dois dias depois, todo mundo voltava de onde tinha vindo", lembra Nenesio.

Ao mesmo tempo em que Brasília era erguida, Taguatinga tomava forma rapidamente. Nos primeiros 10 dias, 4 mil pessoas moravam na região, ainda sem infra-estrutura, luz e água. Poucas famílias tinham condições de manter um gerador. "O resto da vila vivia na escuridão", conta Nenesio. Alguns cavavam poços artesanais que chegavam a 20m de profundidade. "A inauguração de Brasília se aproximava e o trabalho apertava. As pessoas trabalhavam o tempo todo e dormiam às 20h. Nada podia ser feito na escuridão", conta o pioneiro.

A situação começou a mudar em 1960. Os equipamentos públicos de saúde e educação apareciam aos poucos e a cidade tinha 30 mil habitantes. Na virada dos anos 50 para os 60, Nenesio conheceu a atual mulher, Gersina de Sousa Duarte, 62, em uma festa junina na igreja Nossa Senhora do Pérpetuo Socorro, onde hoje funciona o Centro Educacional Stella Maris. Três anos depois, já casados, tiveram contato com os primeiros telefones instalados na cidade. E em 1969, o número de aparelhos havia se multiplicado: 400, no total, e um posto de serviços para ligações interurbanas.

Até 1973, a família Aragão morou no centro da cidade e, à luz de velas e lampião, viu Taguatinga se transformar. A partir de 1966, as ruas foram asfaltadas, as primeiras lojas comerciais apareceram e a madeira das casas foi substituída por alvenaria. "Também reformamos a nossa casa", lembra, orgulhosa, Gersina. O casal teve dois filhos: José Vital, 45, e Tânia Regina, 43. A relação das crianças com a cidade já era bem diferente. As ruas eram asfaltadas, iluminadas e viravam palcos de brincadeiras de rua.

Na adolescência, Tânia só saía da cidade para fazer faculdade. À noite, freqüentava com os amigos os lugares mais badalados de Taguatinga: a Praça do DI, a sorveteria Cogumelos e lanchonete Sanducha. Um cinema e festas na casa dos colegas também caíam bem. A volta para casa era a pé, à noite, sem perigo. Depois que casou, ela saiu de Taguatinga. "Foi a melhor época da minha vida. Fui feliz aqui", recorda Tânia.

Verticalização
Por volta de 1968, Taguatinga tinha 100 mil habitantes e mais de 12 mil crianças foram registradas na cidade. Sinal de que o crescimento estava só começando. O comércio se consolidava. Eram mil estabelecimentos, 50 indústrias leves e hortifrutigranjeiros. Em 1979, Taguatinga estava com outra cara. Não podia mais ser comparada àquela pequena cidade de interior de 20 anos antes. Mas o espaço era cada vez mais escasso e a cidade não podia mais crescer no sentido horizontal. O caminho era a verticalização: os prédios comerciais construíram o segundo andar e os edifícios residenciais altos começaram a aparecer. No meio da explosão imobiliária, nascia o filho mais novo de seu Aragão, Wesley Duarte, 29 anos.

Dona Gersina temia aquela expansão: já havia problemas com segurança e trânsito. Temerosa, ela não dava a Wesley a mesma liberdade que concedeu aos outros filhos. As brincadeiras de infância eram perto de casa. A adolescência nas boates, como a London London, no centro. Antes de entrar, ele e os amigos ficavam na Praça do DI com os sons dos carros ligados em alto volume. "Rachas e pegas viraram moda. Muita gente morreu em acidentes", lembra ele.

Com 30 anos, em 1988, Taguatinga beirava os 500 mil habitantes e estava entre as 45 maiores cidades do país. Em 2005, a cidade tinha 259,1 mil moradores. Neste ano, são quase 300 mil, entre eles, os Aragão (seu Nenesio já tem dois netinhos). O futuro, diz o administrador Benedito Domingos, deverá ser bem planejado. "Precisamos de mais prédios e haverá uma área de diversão e revenda de carros depois da saída norte. Taguatinga virou um pólo econômico, social, de educação e saúde para outras cidades do DF e de Goiás. A tendência é só melhorar", resume o político.

Tradição e negócios


Juliana Boechat - Estagiária do Correio Braziliense
Caderno especial Taguatinga 50 anos.

Taguatinga tem cara de metrópole. As ruas são largas, pessoas vão e vêm de todos os lados e motoristas impacientes buzinam. O comércio, a principal atividade econômica da cidade, chama a atenção. Só no centro de Taguatinga passam, por dia, cerca de 8 mil pessoas em busca dos mais variados tipos de mercadorias e serviços. Mas é na Comercial Norte onde o comércio mais floresceu. É lá que dois centros comerciais se destacam: o Mercado Norte e o Taguacenter.

Eles ficam lado a lado e contrastam tradição com modernidade. O Taguacenter, inaugurado em 1977, acompanhou o crescimento apressado de Taguatinga e logo se tornou um dos maiores símbolos do comércio na cidade. À beira da Avenida Hélio Prates, é fácil perceber a fachada de combogós azuis e laranjas e o colorido das lojas de tecido viradas para a rua. Moderno, o pequeno shopping atrai cerca de 7 mil pessoas todos os dias em busca de panos para roupas, bijuterias ou peças para produção de artesanato. Os estabelecimentos sempre garantem variedade, preço baixo e, com isso, clientela fiel.

Algumas lojas foram criadas ao lado do pequeno shopping e, com o passar do tempo, só cresceram. Este é o caso do Armarinho Novidades. O comércio é da família de Francisco de Sousa Leite, o seu França. Quando começou o negócio, no final da década de 1970, ele só conseguiu comprar 50 metros quadrados de loja. "Era caro demais, então começamos de baixo", lembra França. Hoje, são 3 mil metros quadrados divididos em dois andares, com mais de 14 mil tipos diferentes de produto. "Tinha um cinema no subsolo, mas assim que ele foi desativado, ampliamos a loja", conta Zélia de Azevedo, esposa de França. Ela diz que o Taguacenter seguiu a tendência da cidade ao longo dos anos e os comerciantes do mercado não passaram por crises econômicas.

"O Taguacenter cresceu com o armarinho e nós crescemos com o shopping", acredita. Os quatro andares do prédio se dividem em salas comerciais e lojas de tecido, de bijuteria a armarinhos. Ao oferecer serviços básicos para a população — salas de dentistas e médicos —, o lugar atraiu a população e firmou o nome no comércio local. "É referência. Tanto é que alguns ônibus colocaram o Taguacenter como destino final da viagem", diz Zélia.

A realidade do Mercado Norte é bem diferente. Desde a inauguração, em 1961, o galpão mantém a aparência e as letras garrafais na fachada. O mercado tradicional foi erguido quando o comércio de Taguatinga era formado por mascates e comerciantes que vendiam mercadorias de porta em porta. Nessa época, açougues, lojas de roupa e a pastelaria Dois Irmãos eram as maiores atrações do mercado. Aos poucos, muitas lojas deram lugar a armarinhos, restaurantes e mais lojas de roupa. Mas a pastelaria continua.

Em família
Beatriz Bernardes Yamaguti, 57 anos, também está há muito tempo no mercado. Mineira, chegou à idade com 11 anos e, aos 14, começou a trabalhar na barraca de roupas da irmã mais velha. Foi ali, entre os corredores, que conheceu Getúlio Yamaguti, o atual marido. Na década de 1960, ele trabalhava a dois corredores de distância, no armazém de um primo. Pouco tempo depois do primeiro encontro, começaram a namorar, se casaram e tiveram os primeiros filhos.

Para manter a casa, compraram um espaço no mercado. "Construímos a nossa casa com o dinheiro que ganhamos na loja. Dá para viver muito bem", diz satisfeita. O casal investiu em uma loja de roupa e juntos fizeram do Mercado Norte a segunda casa. A história do mercado é contada a cada corredor, em cada loja, por várias gerações. "É como estar em família", conta Beatriz.

Já o Mercado Sul, na QSB 13, foi o primeiro centro comercial organizado de Taguatinga. Inaugurado ainda na década de 1960, quando o comércio se desenvolvia na cidade, o local era freqüentado por pessoas em busca de miudezas. Desde aquela época, a principal característica do mercado é a falta de um limite físico para unir os lotes. As lojas são separadas e sem espaços definidos, com grande capacidade de mobilidade. No início da década de 1990, com a "explosão" do comércio em Taguatinga, o Mercado Sul entrou em decadência. Hoje em dia, a maioria das lojas oferece prestações de serviço como consertos de eletrodomésticos, serralherias e lojas de estofados.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Uma mão lava a outra


Juliana Boechat
Foto: Paulo Henrique - CB

A dona-de-casa Gidalva Silva de Jesus, 44 anos, mora na última casa de uma rua de terra batida no Varjão. A varanda, protegida por uma cerca de madeira, tem geladeira, máquina de lavar e mesa de plástico. Seis caixas empilhadas também chamam a atenção do visitante. Ali estão guasrdadas barras de sabão reciclado feitos pela moradora. Gidalva aprendeu a produzir o material no Projeto Biguá, em dezembro do ano passado. Desde então, ela gasta R$ 0,50 para produzir o produto com óleo de cozinha e vende por R$ 1,50 em feiras na cidade. "É um dinheiro que ajuda a pagar as contas da casa", explica.

O programa de reciclagem do óleo mudou a rotina da dona-de-casa. Agora ela transforma em sabão o que antes seguia ralo abaixo. "É uma terapia. Aprendi o mal que o óleo pode fazer no meio ambiente. Agora passo as tardes trabalhando com algo que eu gosto. Eu jogava óleo pelo esgoto e agora me ocupo e ainda tenho uma renda a mais", diz. Ela sempre trabalhou no posto de saúde da comunidade, mas no meio do ano passado decidiu deixar o emprego e vender marmitas. A partir de então, Gidalva ficou insatisfeita, pois não sabia como ocupar as tardes durante a semana. Mas a maior mudança que o projeto causou na vida de Gidalva foi a união da família. "Todo dia à noite, a minha família me ajuda a fazer os sabões. Temos tempo para conviver, conversar sobre a vida, contar coisas do dia. É muito bom", conta satisfeita.

O trabalho da dona-de-casa depende de alguém que vive perto dali. A socióloga e coordenadora da ONG Movimento Ecológico Dolores Pierson, 50 anos, mora a menos de 10km de Gidalva, no Lago Norte. A casa dela é grande, com jardim amplo e decoração indígena. E dali sai a matéria-prima do sabão de Gidalva. O produto final ainda é (re) utilizado por Dolores para lavar pratos e roupa. Mesmo com realidades bem diferentes, o Projeto Biguá, organizado pela Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb), integrou as duas comunidades e promoveu a integração social e a preservação do meio ambiente.

A idéia do projeto surgiu com coleta de lixo e não demorou muito para evoluir e virar reciclagem de óleo de cozinha. A socióloga Dolores tomou conhecimento do projeto no fim do ano passado e percebeu o mal que a substância jogada fora estava fazendo à natureza. Percebeu, assim, que poderia ajudar o próximo. A exemplo de Gidalva, a rotina da moradora do Lago Norte mudou. Mesmo gastando um pouco mais de tempo no dia-a-dia, faz questão de cuidar do destino do óleo. Dolores coa o óleo usado e armazena em uma lata de alumínio até esfriar. Ela, então, coloca a gordura em garrafinhas pet de 250 ml e leva a um posto de coleta próximo de casa, na QI 3 do Lago Norte. Dolores garante que vale a pena: "A destinação do óleo é nobre. Vale a pena mudar um pouco o dia-a-dia para ajudar."

Cuidados
Especialistas em preservação do meio ambiente alertam para os perigos do óleo de cozinha desepejado nas pias dos brasilienses. O professor Marco Antonio Almeida Sousa, do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB) explica que o produto é apenas um tipo de gordura responsável pela degradação da natureza. E sugere que o material seja cada vez menos utilizado.

Segundo ele, o óleo não é tóxico. Mas entope encanamentos da rede de esgoto e polui mananciais. O Distrito Federal tem nascentes de três bacias hidrográficas: São Francisco, Tocantins e Paraná. "Nas nascentes, pequenas quantidades de óleo podem virar uma grande poluição", ressalta. As 6 mil casas do Lago Norte produzem cerca de 9 mil litros de óleo por mês. Por isso, quatro postos de coleta deste material foram distribuídos para incentivar a população a participar do projeto (ver quadro). "Reciclar é sempre a melhor opção", garante Marco Antonio.

Em dezembro do ano passado, 30 mulheres do Varjão se reuniram para aprender sobre a produção do sabão reciclado e os males que o óleo de cozinha causa na natureza. Dessas, apenas seis foram selecionadas para iniciar a pequena cooperativa. Depois, um grupo foi formado para manter o projeto, com distribuição de banners e panfletos no Lago Norte. O coordenador do projeto, Fernando Starling, pensa em levar o Biguá para as demais cidades do DF. "Vamos esperar a primeira parte dar certo para darmos o próximo passo", explica. "São Sebastião e o Lago Sul podem ter o mesmo tipo de relação de econegócio", sonha.

Pontos de coleta
Construshopping – QPPN QI 13
Supermercado Big Box – EPPN QI 10
Colégio Indi Bibia – SHIN QI 3 / 5
Prefeitura Comunitária da Península Norte – EPPN QI 3 (Ao lado da Igreja Nossa Senhora do Lago).

Perigo sob as marquises



Juliana Boechat - Estagiária do Correio Braziliense

Uma operação conjunta da Defesa Civil, Polícia Militar e Subsecretaria de Fiscalização (Sufis) percorreu o comércio da M Norte, em Taguatinga, para fazer uma varredura nas marquises dos prédios da região. No primeiro dia, 79 edifícios comerciais foram vistoriados e 22 notificados por estarem em estado gravíssimo. A vistoria continua hoje pela manhã em mais 30 prédios da comercial. Os proprietários desses estabelecimentos terão dois dias para providenciar um laudo técnico sobre as estruturas feito por um engenheiro. Caso sejam constatadas irregularidades, a obra de correção deverá ser realizada o mais rápido possível. Quem não cumprir o prazo será multado.

Segundo o engenheiro-chefe do núcleo de vistorias da Defesa Civil, major Vicente Tomaz de Aquino Junior, as marquises notificadas durante a operação ofereciam risco iminente e terão de passar por uma reforma o mais rápido possível. "Queremos evitar acidentes. Mostramos às pessoas como as construções estão erradas e notificamos, mas depois elas devem resolver a situação", explicou. A Sufis se responsabiliza pelo acompanhamento do trabalho e por verificar se a obra está sendo realizada conforme as orientações. O valor mínimo da multa, de R$ 570, aumenta de acordo com a área da marquise considerada perigosa.

As maiores irregularidades observadas pela equipe de fiscalização foram infiltrações, sobrecarga, inclinação da ponta da construção e apoio indevido. Um dos casos mais perigosos foi encontrado no comércio das quadras 36/38. A estrutura de ferro estava à mostra e enferrujada. O apoio era feito por duas hastes e o centro da marquise estava rebaixado. Um dos funcionários da loja, Cristiano Hércules, 30 anos, concordou com a fiscalização e disse que a reforma da fachada deveria ter sido feita há muito tempo. "Tem gente que se pendura nas hastes e parece que o teto vai despencar. Há um ano e meio arrancaram a luz que ficava no meio com um tapa. A qualquer momento essa estrutura vai ceder", relata.

O dono do Bloco E, Lote 1, Arnóbio Sousa Milhomem, 59 anos, foi notificado e diz ter sido pego de surpresa. Ele construiu o prédio há 22 anos e a fiscalização nunca tinha reclamado de nada. Por isso, ele acreditava que o edifício não apresentava irregularidades. "Vou chamar um engenheiro e fazer tudo dentro da lei, mas é uma tarefa complicada. Não sei quanto o especialista vai me cobrar pelo serviço e se vou ter o dinheiro para pagar", diz. O fiscal de atividades urbanas da Sufis Sandro Rodrigues garante que os prédios continuarão a ser fiscalizados. "Queremos manter a segurança e não multar ou fechar todos os estabelecimentos", garante.

Perigo
O professor de engenharia civil da Universidade de Brasília (UnB) Dickran Berberian diz que a marquise é uma construção perigosa, pois não dá sinais antes de desabar. "O único sintoma é a pequena inclinação da ponta da estrutura. Após perceber esse problema, o proprietário deve procurar um especialista para tomar as providências corretas", orienta. O primeiro sinal pode ser causado por excessiva carga e encanamentos bloqueados, que acumulam grande quantidade de água na ponta da construção.

Segundo o professor, a marquise é composta por duas estruturas metálicas. Quando a parte superior, ligada à parede do prédio, é rompida, as chances de desabamento são grandes. "A parte de cima pode ceder completamente, mas a de baixo continua inteira. Quem estiver passando pelo local corre o risco de ser esmagado contra a fachada do edifício", explica. Esse tipo de desabamento pode acontecer por diversos motivos: falta de vistoria, tubos de escoamento de água congestionados, infiltrações com água poluída que destrói o ferro da estrutura e peso excessivo na ponta da marquise. O conselho do professor é fazer a manutenção constante.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Seis linhas, por favor.

Estava quieta. Era sexta-feira e batia aquela preguiça de final da semana. Antes do almoço eu já tinha terminado o meu trabalho. Voltaria à tarde para o jornal só para ajudar os outros estagiários e lapidar o que eu já tinha feito. Evitar o estresse é o nosso lema. Como já era por volta de 13h, peguei minha bolsa e decidi almoçar, mas meu chefe me parou: "Tá tudo adiantado? quer fazer uma matéria?", perguntou. Eu não lembro a última vez que fiz uma matéria e saiu no jornalão. Muito menos uma pauta não-social, que não fosse de meninos de rua jogando bola e histórias de crianças carentes em visitas à embaixada x ou y.
Então é claro que aceitei.
Eu deveria acompanhar a apresentação de uns dados do Hospital de Base. O hospital tratava mais casos de acidentes de queda -- de escadas, na rua, em casa --, do que de acidentes de trânsito. E isso era "alarmante".

Almocei correndo, voltei para o jornal, pedi o carro, e fui. Às 14h em ponto eu estava sentada no auditório do HB, pronta para anotar absolutamente tudo. Eu achava que os dados eram importantes, então assimilaria tudo rapidamente e iria em busca da minha parte favorita nas matérias: os personagens. Mas o evento só começou por volta das 15h, quando a loirinha global chegou, junto com um cara gordo e de cabelos brancos que eu descobri ser o secretário da saúde, Geraldo Maciel.
É assim que funciona: Globo chegou, chega todo mundo; o que não tinha começado, começa; o que não tinha acabado, acaba. E ai de você se reclamar...
Mas me arrependi de ter desejado que a apresentação fosse rápida. Logo no terceiro slide, não entendia mais nada que a "servidora do Ministério da Saúde" falava. Não dava tempo de anotar o que ela dizia, nem de ver as imagens no power point produzido com tanto carinho. Era tudo voando e a mulher falava tudo errado. Entrei em desespero. No meio das explicações eu me flagrava pensando: "Não é póprio que fala, é própriooo", e pronto, quando eu dava por mim, já estava perdida de novo. Ela também tinha uma mania de comentar sobre a realidade social no mundo. Eu pensava em me matar ali, naquele momento.

Quando me concentrei de novo, percebi que o pessoal da Globo, da CBN e o secretário não estavam mais na sala. Então por que eu estava?
Eles saíam, eu saía, uma loucura.
Se eu perdesse algum fato super importante, eu ia me ferrar. A sensação que eu tinha era de estar sozinha ali. A super-repórter da super-Rede-Globo não me ajudaria, e a magrela da CBN tinha chegado completamente atrasada. A loirinha de olhos verdes e global estava andando em uma plataforma anos 60 e olhando para o teto o tempo inteiro. Não sentiria nem o meu cheiro na frente dela. Então eu teria mesmo que depender só de mim. E assim foi.
Depois de horas, descobri o release com todos os gráficos para a minha matéria. Nessa hora, misto de felicidade e raiva. Se eu tivesse conseguido o maldito papel às 14h, meu trabalho seria esperar o secretário, pegar a fala dele e ir embora em busca dos personagens. Mas aí não teria graça!
Ainda esperei um tempo ali, mas vi que nada mais aconteceria. A CBN estava com a matéria quase pronta e a menina da Globo não parava de se maquiar. "Câmera, este batom ficou bom? Não gostei".


Cansei e fui ao PS. Para isso, uma longa jornada no maior calor do mundo. O HB é ENORME. A sala de espera do atendimento do hospital tem um cheiro diferente, um clima diferente, nunca tinha ido lá. As macas saem das ambulâncias com pessoas muito mal e passam na frente de todo mundo que espera a vez de ser atendido. Até quem quer tirar uma simples espinha da testa acaba vendo cenas constrangedoras. São muitas pessoas sofrendo. Olhei em volta e vi gente com nariz e boca enfaixados, que não podiam dar entrevista, pessoas chorando porque os parentes estavam mal, e de repente, a luz: uma única moça sentada, tagarela, com o tornozelo inchado. Eu precisava de alguém que tivesse caído e machucado a perna, o braço, o que fosse. E ela era esse alguém.
"Trabalho com vendas, estava andando em um lugar sem calçada, torci o pé e caí. Me estabaquei", contou Maria Batista, 26 anos, rindo.

Mas era fraca. Personagem fraco. Eu tinha que achar outro.

Nisso, chega a menina da CBN esbaforida: "Você conseguiu personagem?"
- Um bem fraco.
- Eu preciso de um. Olha aquela ambulância!
E ela invade a porta de trás do carro, onde tem duas moças: uma deitada meio inconsciente e uma sentada, desesperada, assinando a papelada do hospital. A repórter, sem cerimônia, pergunta para a moça esbaforida:
- Qual o problema dela?
- Ela passou mal e caiu. Acordou sem falar nada com nada.
- Você imaginava que uma queda causaria isso?
- Mas ela passou mal e caiu.
- Fala aqui no gravador que você não imaginava que uma queda poderia causar um transtorno deste tamanho.
- Eu não imaginava que uma queda poderia causar um transtorno deste tamanho.
- Obrigada.
Enquanto isso, a moça deitada e alheia me olhava e se esforçava para entornar a boca e sorrir, mas não conseguia. O que dirá falar algo. Ainda conversei com a irmã que cuidava ela, mas resolvi dar privacidade. Aquele também não era um personagem decente.

Insistente, fui até a porta do PS, onde só os autorizados entram e decidi seguir um homem de muleta e pé quebrad que tinha a-ca-ba-do de entrar. Ele seria o melhor personagem de todos. Fui barrada.
- Guarda, só quero falar com aquele moço, por favor.
- Dá a volta no hospital e vai encontrar ele saindo ali do outro lado. (Como já disse, o HB é ENORME)
- Uma ova! Por favor, deixa eu passar??
E nessa hora passa o produtor, a repórter e o câmera da Globo. Eles nem me viram. Porque não olharam para o lado.
- Moço, por que eles podem e eu não? Ó, moço, ó: Correio Bra-zi-li-en-se.
- Eles têm autorização.
- Como eu faço pra pegar essa autorização?
- Dá a volta no hospita....
- Obrigada.

Olhei em volta e peguei o celular para chamar o carro do jornal. Mas naquela última olhadela para tirar o peso na consciência, me deparo com uma moça e dois meninos completamente ralados... "Coisa de criança", pensei. "Eles devem ter caído", pensei animada. (Essa felicidade em cima da tristeza dos outros é comum na profissão). Dito e feito: eles tinham caído de bicicleta naquela tarde mesmo e, segundo a minha apuração, queda de bicicleta era motivo de atendimento diariamente no hospital. Achei meus personagens!
"Só me lembro que a gente descia uma ladeira bem rápido e meu irmão perdeu o controle da bicicleta e batemos a cabeça no chão", contou o menorzinho, Natanael Guimarães. Morri de dó. Conversamos ainda por cinco minutos, perguntei tudo que eu precisava e logo pensei: "Pena que estou sem fotógrafo", já imaginando a matéria no jornal. Total foca.

Voltei pra redação animada e me sentindo produtiva depois de 10 horas trabalhando. Eu tinha feito um podcast com o secretário, tinha adiantado a matéria por telefone para o site e só me restava sentar e escrever as minhas 30 linhas. Estava calma, terminei de fazer o Grita Geral e comecei a escrever a curta -- o que seria no final das contas toda a minha apuração da tarde: uma materinha de 12 linhas.
Demorei uma hora pra escrever tudo, com a quantidade de número, um texto confuso e repetição de palavras sem sinônimos.
Mando pro editor.
Péééééém.
Volta e refaz, mas desta vez, com seis linhas.
Sem pensar que isso fosse possível, fiz. Mandei pro editor. Ele editou, ele foi indiferente, ele me liberou.

Depois saí correndo pra aula. Afinal de contas, é lá que eu aprendo a fazer jornalismo de verdade, right?

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Nada de Cidades por um dia.



Eu já tinha ido ao Congresso algumas vezes. Uma deve ter sido nessas visitas de escola há quase uma década. Voltei ano passado pra trabalhar, se não me falha a memória... Fui de apêndice da minha chefe na época. Ela ia fazer uma grande matéria pro Ministério da Defesa e eu ia "aprender com quem sabe".
Não prestei atenção em quem ela entrevistava, confesso. Queria ver quem os jornalistas de redação mesmo estavam entrevistando, o que estava acontecendo no tapete verde e no azul. Olhava meio embasbacada como aquele lugar é ENORME, bonito e cheio de carpete. Quanta coisa acontece ali todos os dias...
Enquanto minha chefe entrevista o Jucá. O Romero, que na época eu não sabia quem era, eu fiquei viajando no corredor das Comissões. Até que eu me deparo com um rosto conhecido, sentado em uma sala de comissão vazia, lendo um papel que havia sido distribuido ha pouco por uma assessora qualquer. Eu conhecia aquele cara de algum lugar... Cabelos bem pretos, terno, cara mesmo de político. Eu não queria ficar encarando, mas também não conseguia pensar em coisa alguma. Quem é ele? De onde eu conheço esse cara? A chefe e a fotógrafa passam por mim, me agarram pelo braço e corremos atrás de um outro senador qualquer para dar a opinião sobre um assunto qualquer. No último instante, quando ele olha pra mim...
Era o Collor. Só o Collor.
Sentado ali, com toda aquela história política e jornalística por trás. Quantas coisas eu já sabia dele, tinha lido sobre ele, tinha visto na TV... e agora eu estava ali, na cara dele. Ok, sem grandes deslumbramentos...

A outra vez que fui ao Congresso doi sozinha, mas também pelo MD. Eu ia acompanhar um grupo de adidos militares e aproveitei para ver de perto também o Salão Verde, o Azul, os plenários e o Túnel do Tempo. Vi pela primeira -- ainda a únca -- vez o desenho da bandeira do Brasil no carpete do Senado, vi uma das cenas clássicas de um senador falando pra ninguém e esbarrei com o Supla-pai.
A matéria ficou legal, tirei foto com as esposas e filhas de adidos e fui pra casa satisfeita.

E então só voltei ao Congresso ontem. Não sabia se ia conseguir sair do trabalho à tempo, mas o Thadeu me incentivou a conhecer de verdade the dark side of the force. E lá fomos nós, com a desculpa de fazer um trabalho para a faculdade, mas na verdade para ele me mostrar como as coisas funcionam. Às 16h30 ele me buscou na frente do Correio. Ele me alertou que precisava de força física. Não acreditei. Até chegar no estacionamento, longe à beça do Congresso. Eu pensava: Vou matar o Thadeu. Olha o tanto que ele quer que eu ande!!
Era um desses dias nublados, mas calorentos. Estávamos pingando. Até que, como um oasis, surge uma tendinha com banquinhos. Sentamos ali e, em menos de cinco minutos, uma van parou nos oferecendo ar condicionado, bancos confortáveis e som nenhum até a Câmara. Quase beijei os pneus.

Chegamos à Câmara dos Deputados, a concha virada pra cima. O Thadeu falou a senha mágica, eu dei a minha carteira de identidade. Entramos e fizemos o mesmo na passagem do Salão Verde paro Azul -- Câmara/Senado. Fomos ao cafezinho, mas pedimos duas águas; ele me explicou por onde os jornalistas entravam, por onde os deputados entravam e saíam e como a gente deveria agir: "Temos que andar", ele repetia. Eu pensei que tivéssemos que ficar ali perto da sala onde a CPI dos cartões estava sendo discutida e logo sairia algum senador louco por uma entrevista. Mas não demorou muito para a opção do Thadeu vencer. E a minha, claro, perder. Andando de um lado para o outro, víamos nada mais que jornalistas e visitas, então resolvemos ocupar o tempo com conversinhas bestas. Mas tudo foi interrompido no Túnel do Tempo. Ideli Salvatti, a líder do governo no Senado! "Vamos correr!". Ela tinha parado tudo para responder a Record, mas nós dois tivemos que segui-la até o elevador, ela estava "com pressa". Meu gravador estava sem uma pilha -- a coisa mais esquisita do mundo -- então eu fingia que anotava e o Thadeu fazia o trabalho sujo de quase enfiar o aparelhinho na boca da senadora. E de fazer as perguntas, já que eu tinha planejado algumas, mas o assessor dela me tirou do ritmo:

"Qual o seu nome?", perguntou o assessor hiperativo, com um terno marrom burro quando foge. "Juliana", respondi e voltei minhas atenções pra ela. "Juliana de quê?". "Boechat". "Ahh". "De onde você é?", ele perguntou. Isso, no jargão jornalístico, significa: "Em qual jornal, revista e afins você trabalha?". "Correio Braziliense", respondi. Ele deu um sorrisinho e me deixou prestar atenção na entrevista de novo, mas aí eu já tinha perdido o fio da meada e o Thadeu logo terminou as perguntas. Aí foi a vez do Thadeu enfrentar o questionário. "De onde você é?", o assessor de novo pro meu amigo engravatado. "Da Carta (Capital)", ele. Depois de três tapinhas nas costas, ele olha pra gente e faz movimento com os dedos: "Depois passem lá no gabinete pra gente conversar".

A gente saiu rindo. Somos meros estagiários e mesmo em trabalho para a faculdade, falamos aqui tudo sem pensar. E o resultado final acabou sendo inesperado.
Paramos ainda um tempo na porta de vidro preta onde está acontecendo a CPI dos Cartões Corporativos esperando o Arthur Virgílio sair. Mas ele, como bom líder da oposição, não deixaria o circo pegando fogo e sairia assim, do nada, não é mesmo? Então Thadeu olha pra mim: "Vamos andar!". Oh no! Reclamei, já queria sentar. Quando passamos pro Salão Verde e voltamos pro Azul, Filipe Coutinho, o estagiário de Política, fala animadasso: "Olha quem tá ali!!!". E eu, Juliana Boechat, estagiária de Cidades, atônita: "Queeeem?", olhando de um lado para o outro. Era o Álvaro Dias, um senador que pinta o cabelo de acaju. Ele era o centro das atenções no dia porque tinha confessado ser o responsável pelo vazamento do dossiê que estava acabando com a imagem da Dilma, na Casa Civil.

"Quem está ali, Thadeu?! De que partido essa pessoa é?", enquanto apressávamos o passo e eu ainda não tinha visto ninguém. "PSDB, Juliana, ELE é o Álvaro Dias". E aí corri de vez. Ele ia falar com a Globo e ninguém -- repito, ninguém -- empaca trabalhos globais. Fizemos duas perguntas.... mentira, o Thadeu fez, e nós fomos embora. A essa altura eu já tinha tirado meu crachá e, quando agradeci o tempo concedido, recebi só uma olhada de cima a baixo e um sorrisinho de "quem é você mesmo?".
A apuração para o trabalho da faculdade estava feita.
Eu estava encantada.
O nosso dia tinha acabado. Foi tão fácil falar com eles, mas seria também tão fácil nunca encontrá-los.

Experiência válida, graças ao Filipe Thadeu Coutinho. Passamos no cafezinho para uma última copada de água para comemorar.

Mas não poderia ter acontecido sem uma última parte. A mais divertida, a mais exótica: o gabinete do Clodovil, em que a porta, por si só, já fala tudo. Fica no quarto andar do anexo, pouco acessível ao povo-povo. Assim que chegamos lá, tinha três amigos engravatados tirando foto na frente de duas portas, uma amarela e uma verde. Quando eles sairam da frente, um C e um H em caixas imperiais. A sala dele fica de frente para o corredor, chamando mais atenção que já chamaria normalmente. E ali dentro fica aquele personagem looouco, com o gabinete mais decorado de todo o Congresso, que custou R$200 mil. Do bolso dele.