terça-feira, 26 de agosto de 2008

Becos - Ceilândia


Juliana Boechat - Estagiária do Correio Braziliense
Parte da matéria de Guilherme Goulart publicada em 27 de agosto de 2008
Foto: Cadu Gomes


Ceilândia é a região administrativa com o maior número de becos desocupados. Há 338 nas mais variadas situações. O balanço da Codhab identificou, por exemplo, que 64 apresentam alguma irregularidade e poderão ser retomados pelo governo local. Aqueles que poderão receber edificações seguirão o PDL da cidade. A norma prevê que os espaços ociosos do centro urbano mais populoso do DF recebam, com prioridade, novas unidades imobiliárias. Mas há também projetos de revitalização e uso comum, como construção de praças.

Os planos urbanísticos locais passam pelas QNO, QNP, QNN e QNM. A maioria dos becos fica nas duas últimas. Há 213 desocupados e 53 com algum tipo de construção. Entre eles, a do marceneiro Cisto Alves Duarte, 64 anos. Ele mora de favor no Lote 13, Conjunto D, da QNM 4. Ao lado da casa dele, há um beco abandonado, o 13A. À primeira vista, lembra reduto de entulhos dos mais variados tipos. Mas o local acabou transformado em ambiente de trabalho há 25 anos.

O autônomo usa o lugar pedaços para estocar pedaços de madeira recolhidos na rua. Quando o material está do tamanho certo, sem pregos, ele coloca na caçamba da Kombi e leva a restaurantes com forno à lenha. Cada montante vendido rende R$ 100. Cisto sabe da proibição de trabalhar na área pública. Por isso, pensou em construir um galpão regularizado junto ao GDF. Cumpriu todas as etapas, e os vizinhos ainda aprovaram a presença dele no local. Mas não conseguiu juntar o dinheiro necessário para a conclusão do projeto. "Eu ganho pouco. A prioridade é comprar comida", justificou.

Assim, em vez do galpão, o marceneiro cercou o terrenos com arame. No espaço tem de tudo: latas de tinta vazias, colchões, um canteiro com flores roxas e um vira-lata para proteger o material. Segundo ele, não há perigo. Ele também fica de plantão até meia-noite para garantir que ninguém vá colocar fogo na madeira. Cisto também admitiu não vê problemas caso o lote seja retomado para a construção de um imóvel. "Quando quiserem construir casa aqui, eu limpo tudo e saio, sem problemas. Mas, enquanto eu puder, vou trabalhar neste beco", disse.

Becos - Taguatinga















Juliana Boechat - Estagiária do Correio Braziliense
Parte da matéria de Guilherme Goulart publicada em 27 de agosto de 2008
Fotos: Cadu Gomes

É fácil encontrar becos abandonados e malcuidados em Taguatinga. O espaço entre as casas 13 e 15 do Conjunto C, na QNM 42, tem montes de entulho e lixo espalhados pelo chão. Um dos moradores da rua colocou fogo na grama há poucos dias para aumentar a segurança. A dona da casa 15, Luciane Alessandra da Silva, 32, também presenciou várias tentativas da população de recuperar a área. "Pelo menos, conseguimos cortar a grama. Antes, era difícil enxergar uma pessoa no beco devido à altura do mato", afirmou.

Uma das portas da casa de Luciane fica virada para o beco. Quando ela precisa entrar pelos fundos, tem medo de assaltos. "Não tem iluminação. Olho várias vezes antes de entrar no lote para garantir que está vazio", contou. Ela defende a iniciativa do GDF em ocupar a região. "Não podemos usar mesmo, então é melhor construir algo ali. Dá mais segurança, pelo menos", avaliou. Segundo ela, várias amigas foram assaltadas em outros becos do conjunto nos últimos meses.

A história do beco do Conjunto A, da QNM 38 de Taguatinga é um pouco melhor. O espaço chama a atenção pelo contraste. Um lado tem cascalho e mato. O outro conta com um jardim. Há alguns anos, um policial militar tentou levantar um imóvel no lugar. Mas a construção acabou demolida pelo governo local em 2003. A partir de então, os dois vizinhos se responsabilizaram pela manutenção da área. Segundo a moradora da casa 33, Ronalda da Silva Ramos, 53 anos, vizinha ao beco, antes o mato era alto, cheio de lixo e entulho. "Agora, pelo menos os jovens não se reúnem para usar drogas", disse.

Quando Ronalda se mudou para a casa, há dois anos, a região era perigosa. A porta da casa tinha marcas de tiro. Também havia roubos de carros na rua. Colocou, então, telha no quintal para impedir pessoas de pularem para dentro da casa dela. "O cheiro era insuportável. Tinha até um sofá no meio do mato para as pessoas usarem drogas." Ronalda agora até ajuda a manter o beco bem cuidado e com mato cortado. "Às vezes, fico o fim de semana todo limpando o terreno. Mesmo assim, algumas pessoas continuam jogando entulho e lixo", reclamou.

Becos - Gama


Juliana Boechat - Estagiária do Correio Braziliense
Parte da matéria de Guilherme Goulart publicada em 27 de agosto de 2008
Foto: Cadu Gomes

Os 200m que unem as ruas da Quadra 30 do Setor Oeste passaram por várias transformações. Os entulhos deram lugar à calçada, cerca viva e um jardim com árvores floridas. Tudo resultado de um mutirão organizado pela prefeitura comunitária há três anos. Antes disso, os moradores locais conviviam com a insegurança. A manutenção hoje é feita pelo jardineiro João Porsino de Almeida, 63 anos. Há até arcos de trepadeiras nas passarelas. "Tudo aqui foi feito pelas minhas mãos", orgulha-se.

Situação diferente ocorre na Quadra 1, do Setor Leste. A capela Santa Luzia tomou conta do Lote 30. Mesmo assim, os moradores da rua apóiam a presença do templo. "A capela quase não funciona, mas não perturba", contou. Em frente à capela, há outro beco. Mas abandonado, o que faz com que a comunidade reclame da bagunça. No início da tarde da última sexta-feira, homens bateram boca e gritaram no local. Um dos vizinhos da igreja, que não quis se identificar, se disse cansado. "É sempre assim", lamentou.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

"Pai, me adiciona no orkut?"




Matéria especial dia dos pais para o site da Carta Capital.
Publicada em 8 de agosto de 2008.
Juliana Boechat.

Na perna esquerda do estudante Filipe Thadeu Furtado, 21 anos, tem uma tatuagem. São três datas que definem grandes marcos da vida do garoto. A primeira, como não podia deixar de ser, é a data do nascimento, em 20 de março de 1987. Logo abaixo, a adolescência e a ida ao show da banda favorita de rock Aerosmith, em 12 de abril de 2007. E o fato mais recente, o dia em que conheceu o pai, Saulo Furtado, em 11 de outubro de 2007. Filipe nunca imaginou que o grande encontro aconteceria. Muito menos que seria graças ao site de relacionamento Orkut, pouco usado por Filipe até então.

Desde a infância, o jovem mora em Brasília com a família materna. Enquanto isso, imaginava como seria a vida do pai em Arapongas, no interior do Paraná. Ele sabia que os irmãos tinham perfil no Orkut, mas nunca pensara em se aproximar. Mas em um dia qualquer, em um surto de coragem, Filipe enviou uma mensagem para Samira, irmã por parte de pai, três anos mais nova que ele. Ela não correspondeu. Estava em intercâmbio na África do Sul.

A outra saída era Sara, a irmã com a mesma idade, que não sabia da existência do irmão de Brasília. No início de setembro, depois de trocas de "scraps", a menina bonita adicionou Filipe no MSN. Certamente, o rapaz nunca esperava conhecer alguém tão importante via bate-papo virtual.

Logo na primeira conversa, ele contou: "Era uma vez uma história de um cara que tem dois filhos da mesma idade. E um deles mora em Brasília". Quando ela percebeu o acontecido, logo convidou o novo irmão para ir a Arapongas no feriado de 7 de setembro. "Achei melhor não ir, era muito cedo", lembra. Mas não resistiu. Como que por ironia, no dia das crianças o garoto arrumou as malas e se preparou para conhecer o pai.

A viagem durou cinco horas até Londrina, cidade mais próxima de Arapongas com aeroporto. Filipe sentia o coração palpitando com força, o estômago embrulhava quando pensava no assunto e suava frio. Mr. Tambourine Man, do Bob Dylan, foi o melhor sedativo e ficou marcada com todas as sensações daquele momento eterno. Ao chegar ao sul, se deparou com o inesperado. Na sala de desembarque estavam pai, "mãe", irmã e irmão. Depois do primeiro momento de abraços desconcertados, os dias se tornaram inesquecíveis para toda a família. "Era estranho viver e gostar de tudo aquilo".

E não havia motivos de preocupação. As primeiras impressões deixaram Filipe tranqüilo, confortável e satisfeito. Ele se sentia em casa, como não acontecia há anos. O pai, simples, de bom coração e feliz com a família que tem. Gigliola, a madrasta, virou a segunda mãe. Saulinho, o irmão de 15 anos se mostrou maduro e espontâneo. E Sara. "A pessoa mais maravilhosa que já surgiu em minha vida", define o estudante.

Filipe também se apaixonou à primeira vista por Arapongas. Assim como a família Furtado, a cidade era acolhedora e interiorana. Logo na entrada da cidade, viu a oficina do pai e ficou orgulhoso. Em grandes churrascos, foi apresentado ao resto da família e aos amigos. O avô materno, famoso na cidade por causa da fábrica de móveis que trabalhara, levou Filipe para participar da entrevista semanal na rádio local. Filipe contou sobre a rotina em Brasília e respondeu a perguntas inusitadas de quem não mora na capital do Brasil: "Você já encontrou Mônica Velloso na rua?".

Saulo, Saulinho, Gi e Sara acolheram Filipe como parte da família desde o primeiro momento. Na hora do almoço, conversas banais sobre unha encravada, bandas de rock e arrotos do irmão caçula mostravam como estavam confortável com a presença dele. Mas a grande prova da satisfação da família em receber Filipe apareceu de maneira inesperada. A família havia montado um quadro de fotos recheado de momentos dos irmãos e dos pais, com uma foto dele ao centro. "Filho, bem-vindo a sua família. Nós te amamos!". Filipe ficou roxo, as lágrimas quase transbordaram, mas ele se segurou ao máximo.

O último dia demorou a chegar. Filipe não queria que chegasse porque odeia despedidas. No aeroporto, depois de muitos flashes para registrar o momento, abraços fortes e carinhosos, o estômago dele voltou a embrulhar. O momento de deixar aquele sonho havia chegado. Mais uma vez guardou as emoções. Mas em Brasília, longe da nova família e da "velha", finalmente parou de resistir e chorou tudo o que guardara durante 20 anos. "A partir de agora serão sempre períodos de três dias ou férias. Fico com medo de não tirar o tempo de atraso", diz.

A viagem de poucos dias mudou a vida da família e de Filipe. O contato continua pelas modernidades de Orkut, MSN e celular. Ainda escapa algumas vezes da rotina em Brasília para conferir se o interior do Paraná continua do mesmo jeito que ele deixou. O natal do ano passado e a virada de 2007 para 2008 tiveram um gosto especial. Gosto de família. Agora, o dia dos pais, no próximo domingo, também será diferente. O dia, que antes era vazio, será recheado de saudade e vontade de estar perto do pai. A data, para Filipe, passou a ser a mais significante do ano.



domingo, 20 de julho de 2008

Quatro dias em uma cisterna



Juliana Boechat - estagiária do Correio

Julio Higor Ribeiro dos Santos, 8 anos, viveu quatro dias de agonia. Na última terçafeira, ele caiu em uma cisterna abandonada de aproximadamente 9m de profundidade e 1,5m de diâmetro, na periferia de Luziânia (GO). Dia e noite, implorou por socorro, que só veio na manhã de ontem. Apesar da queda, da falta de comida, de água e do frio, o menino foi resgatado em bom estado de saúde. Ele não sofreu fratura. Deve deixar o hospital hoje, após reidratação.

O acidente ocorreu por volta das 10h do último dia 15, no Lote 8, Rua 59, Quadra 328, do Parque Estrela D’ávila 4. De férias, o menino aproveita o dia para soltar pipas perto de casa. A linha do brinquedo acabou cortada pelo cerol da pipa de outra criança. Julio foi atrás de sua pipa, em uma área de cerrado. Como o terreno estava coberto por mato de quase 1m de altura, ele não viu o buraco e caiu.

Julio bateu o lado esquerdo do rosto no joelho e não conseguiu se segurar nas paredes de barro. Ele ainda tentou escalar a parede lisa algumas vezes. “Eu gritava muito. Dizia que era magrinho e queria um pão, mas ninguém me ouvia. Achei que não fosse mais sair dali”, contou, se recuperando no hospital. O menino não conseguiu dormir e, para amenizar o frio, abraçava o joelho e se cobria com o casaco. “Eu tinha medo dos besouros, grilos e lagartixas”, comentou.

Mãe de Julio, a dona-de-casa Eliete Rapouso do Carmo, 38 anos, deu falta do filho 15 minutos após ele avisar que buscaria a pipa. Eliete estranhou a demora e saiu à procura do garoto. “Olhamos nas cisternas perto de casa e ele não estava em lugar nenhum”, lembrou. No segundo dia de desaparecimento, Eliete registrou ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia de Luziânia, acionou o Corpo de Bombeiros e distribuiu panfletos com o rosto do menino em paradas de ônibus e padarias. “Nessas horas pensamos tudo de pior. Mas não desisti. Rezava todas as noites para encontrar meu filho.”

Gritos na mata
Na manhã de ontem, em mais uma busca realizada pela família, a dona-de-casa encontrou uma agente de saúde que trabalha na região. A mulher a levou até uma cisterna escondida pelo mato alto. “Quando ouvi a voz do meu filho dizendo que estava vivo, gritei tanto que fiquei rouca. Era muita felicidade. Só queria abraçá-lo”, contou.

Os parentes do garoto acionaram o Corpo de Bombeiros às 8h48. “Ele estava fraco, sujo, mas passava bem e não tinha fraturas”, disse cabo Wellignton Gustavo Nascimento Monteiro, responsável pelo resgate. Ao descer na cisterna, ainda sem enxergar a criança, o cabo conversava com o menino para mantê-lo consciente. A missão durou cerca de 10 minutos.

O bombeiro fez questão de ir ao hospital à tarde ver como estava o menino. “Ele foi muito corajoso e forte. Estava completamente isolado, em uma mata”, ressaltou o militar. Julio estava bem e planejava o que fazer quando chegasse em casa. “Eu quero abraçar a minha mãe, assistir Chaves (desenho animado) e soltar pipa”, adiantou.

Risco constante
A cistena em que Julio caiu está aberta há quase 10 anos e não foi fechada ontem. A vizinha do lote, Luzia Cristina Pereira Santos, 38 anos, disse ter ouvido gritos de socorro, mas como estava distante, não imaginou que fosse alguém na cisterna atrás de sua casa. “As crianças brincam de pique- esconde no meio do matagal”, contou. Segundo o cabo Gustavo, os bombeiros atendem a pelo menos dois pedidos diários de salvamento de pessoas e animais caídos em cisternas e fossas da região.

Um acidente parecido ao de Julio ocorreu há dois dias no bairro Itapoã 1, em Planaltina de Goiás. Jeferson Ferreira, 13 anos, morreu ao cair em uma cisterna abandonada. Ele e um amigo saíram para soltar pipa em uma área de cerrado, no começo da noite de terça-feira. O garoto perdeu o equilíbrio e despencou no buraco. O Corpo de Bombeiros do Distrito Federal resgatou o corpo no dia seguinte.

sábado, 28 de junho de 2008

ABANDONO sem conforto e segurança

Renato Alves, da equipe do Correio e Juliana Boechat, estagiária do Correio.

A Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), no Gama, abriga índios que buscam tratamento médico no Distrito Federal, como Jaiya Pewewiio Tfiruipi Xavante, a menina morta quarta-feira. Segundo os hóspedes, o prédio no Km 20 da BR-060 (rodovia Brasília— Goiânia) não oferece conforto e segurança. As instalações são precárias e falta material de limpeza. Os abrigados dormem em colchões e camas velhos e usam banheiros coletivos (para homens, mulheres e crianças), sujos e desgastados. Já os funcionários convivem com corriqueiros atrasos de salários.

A direção do Casai no Distrito Federal e o delegado Antônio Romeiro, da Polícia Civil, não permitiram o acesso da impressa à casa ontem nem entrevistas com os índios abrigados. Mas o Correio esteve no albergue no fim de 2007 e no início deste ano e conversou ontem com funcionários da casa e acompanhantes dos indígenas. Eles relataram ser comum conflitos entre etnias. A segurança é feita por três vigilantes, um por turno. Há duas enfermeiras durante o dia e duas à noite.

Uma índia camayurá que veio visitar o pai abrigado na Casai do DF, contou que ele pediu para ir embora por causa das péssimas condições do prédio. “Ele tem pressão alta e catarata. Reclamou que não suporta o frio. Na aldeia, acende fogueira ao lado da rede. Aqui, não tem jeito. Passei uma noite lá (no Casai). Dormi em um colchão furado, sem cobertor”, reclamou a índia. Ela contou ainda que esteve hospedada na casa, anteriormente, por dois anos. “Antes, era melhor. Agora, é sujo e não tem faxineira.”

Moradora de uma aldeia de Mato Grosso, a indígena relatou ainda que qualquer pessoa entra na casa. Os vigilantes não cobram identificação, segundo ela. Presidente da Ateni (que significa voz pela vida, na língua dos suruarrá), ONG que trabalha em defesa do direito das crianças indígenas, Márcia Suzuki confirmou as denúncias da camayurá. “Já visitei Casais do país inteiro. O do DF, sem dúvida, é um dos piores”, ressaltou. Ela apontou a falta de segurança como um dos piores problemas da casa do Gama: “Como há muitas etnias juntas, as brigas são comuns. Os poucos vigilantes não dão conta do serviço”.

Márcia Suzuki recebeu a visita ontem de outro índio camayurá hospedado na Casai do DF por causa do filho. O menino tem síndrome de Down e não pode voltar à aldeia porque sofre discriminação. “Ele estava desesperado, em busca de fralda, sabões e papel higiênico. Não havia nada disso na casa. Os sabões eram para lavar os lençóis em que o filho dele dorme”, contou ela. Por causa da precariedade da Casai, ela acolhe alguns índios na própria casa, como a filha do camayurá que está no DF para tratar da pressão alta e da catarata.

Serviços médicos
Há 73 Casais nas regiões brasileiras com população indígena. Elas são administradas por ONGs, por meio de convênios com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão vinculado ao Ministério da Saúde. A Casai do Gama foi criada em 1999. Em geral, os índios vêm para a capital federal devido à falta de serviços médicos em seus locais de origem. A maioria dos internos faz tratamento nos hospitais Universitário de Brasília (HUB) e de Base do Distrito Federal.

Com capacidade para 70 pessoas, a Casai candanga já hospedou 295 de uma vez. Na última terça-feira, quando Jaiya Xavante passou mal, havia 56 pessoas no local, entre pacientes e acompanhantes. Em todas as Casais, a idéia é que os pacientes e familiares retornem às suas tribos depois de curados. No entanto, alguns precisam de tratamentos regulares e passam mais tempo do que o previsto inicialmente.

No ano passado, os ocupantes da Casai local quase foram despejados por causa da burocracia da Funasa. O convênio com a ONG que administra o abrigo, no valor de R$ 2,9 milhões, acabou em junho. O contrato foi prorrogado por mais um ano, mas, até meados de agosto, o dinheiro não havia sido liberado porque uma auditoria interna da Funasa analisava problemas de administração da entidade conveniada. Sem verbas, os funcionários ficaram sem salário por três meses.

A ONG era responsável pelos serviços gerais, manutenção, compra de medicamentos e pagamento dos 45 funcionários — 15 deles eram técnicos em enfermagem, mas havia também um enfermeiro, um nutricionista e um médico. Embora não ofereça atendimento clínico, a casa deveria providenciar serviços como troca de curativos, aplicação de soro, orientações sobre medicamentos indicados por especialistas, entre outros.

Silêncio
Ninguém da Funasa deu entrevista ontem. A fundação se pronunciou apenas por meio de nota oficial, que não informou quanto gasta com a Casai do DF e o tratamento dos indígenas. No comunicado, o órgão garantiu que “na Casai, a Funasa mantém serviço de vigilância 24 horas”. Afirmou ainda que “no local, eles recebem medicamentos, atendimento da equipe de enfermagem, transporte e alimentação balanceada”.

A falta de assistência levou um grupo de indígenas a acampar na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), mês passado. Pelo menos 30 índios da etnia xavante (10 deles crianças com menos de 10 anos) mudaram-se para os corredores térreos e a garagem do prédio. Famílias improvisaram dormitórios usando colchonetes e pedaços de papelão em vez de camas.

Uma festa para São Sebastião



Juliana Boechat - Estagiágia do Correio Braziliense

Os 15 anos comemorados hoje por São Sebastião contam apenas uma parte da história da comunidade. Na década de 1950, o local englobava as fazendas Taboquinha, Papuda e Paranoá e era povoado pelos escravos da sinhá Luzia, dona do engenho, conhecida como Velha Papuda. No meio do cerrado, encontravam-se guilhotinas, lugares de penitência e grande produção rural. Quase 60 anos depois, São Sebastião, a Região Administrativa 14 (RA 14), a 26km de Brasília, virou uma cidade independente, livre para crescer além de seus atuais 100 mil habitantes, e hoje tem muito a comemorar. A festa de aniversário começa às 8h30 e termina às 17h, com apresentações de grupos musicais e o corte do bolo de 15m.

Segundo o administrador da cidade, Josino Alves da Costa, São Sebastião deu um grande passo quando recebeu uma gestão própria, em 1993. Padeiro, Josino mora na região há 25 anos e comemora as últimas conquistas do lugar: “Ganhamos canalização da rede de esgoto, um Tribunal de Justiça e em breve os lotes terão escritura”. Para o futuro, uma visão otimista: “São Sebastião ainda é uma menina. Vamos aproveitar essa fase e nos preocupar com necessidades futuras”. A cidade receberá uma estação da Companhia energética de Brasília e a esperança é que indústrias procurem se instalar na região.

Mas nada disso poderia ser comemorado hoje se não fosse a coragem de Sebastião de Azevedo Rodrigues, 65 anos, que deu nome à cidade. Ele chegou à região em 1959 em um pau-de-arara (caminhão que transportava migrantes do Nordeste e de outras regiões para Brasília, Rio e São Paulo, entre outras cidades) vindo de Patos de Minas (MG) com mais sete pessoas de nome Sebastião para trabalhar nas olarias e produzir os tijolos usados na construção de Brasília.

O começo
Sebastião de Azevedo tirava areia, matéria-prima dos tijolos, do Rio São Bartolomeu. Por isso, recebeu o apelido de Tião Areia. No início da década de 60, muitas olarias foram abandonadas e quem havia chegado ao Planalto Central em busca de emprego ficou sem trabalho. Foi então que Tião passou a coordenar a sua própria olaria. Em pouco tempo, era a pessoa mais rica da cidade. “Eu tinha 22 caminhões, sete olarias, e três máquinas de carregar areia. Isso era muita coisa”, lembra orgulhoso. Mas por volta dos 40 anos, Tião descobriu que estava com doença de Chagas e foi informado pelo médico que a morte era inevitável.

Com a mudança brusca dos planos, Tião Areia tomou uma decisão: “Eu era muito rico e ia morrer. Então resolvi ajudar os outros”. A partir de então, distribuiu espaços de terra vazios na região para amigos e familiares. Ele construiu casas de alvenaria para as pessoas mais carentes e buscou moradores de outras regiões para povoar a atual São Sebastião. Logo, o que hoje é o centro da cidade se transformou em uma pequena comunidade com 72 casas construídas por ele. “O problema é que eu não morri”, brinca Tião, que se curou com medicamentos naturais. Então ele continuou a ajudar as pessoas.

Orgulho
A primeira esposa de Tião, Maria Silva Rodrigues, 58 anos, acompanhou de perto a trajetória do ex-marido. Juntos, construíram e cuidaram do posto de saúde, da creche e conseguiram a iluminação para as casas. Quando recebeu a notícia de que ia morrer, Tião passou todos os bens para Maria. Até hoje, ela mora em frente à Praça Tião Areia, no centro da cidade, em uma casa com um grande quintal e espaço para receber os 10 filhos e 22 netos que teve ao longo da vida. “É muito bom ver a nossa cidade como está hoje”, orgulha-se.

Tião foi obrigado a deixar a antiga casa, logo na entrada da cidade. Enquanto espera o novo lote, vive em uma casa de um cômodo, com duas camas, uma mesa de plástico e homenagens presas na parede. “Estão fazendo suspense, mas acho que o lote vai ser perto da minha praça”, imagina. Ele gosta de mostrar o Morro da Cruz, com um cruzeiro construído pelos escravos. O fundador vê, de cima, a cidade que começou a construir. Ele costumava ir ao local pedir a Deus namoradas e chuvas na época da seca. Hoje, ele agradece a saúde e a coragem que teve ao longo dos anos. “Fico orgulhoso em ver as coisas como estão atualmente, os ônibus cheios chegando e saindo da cidade no início e no fim do dia. Antigamente não tinha nada. Não me arrependo de nada”, garante.

São Sebastião é uma região com estilo de cidade de interior. É afastada de lugares movimentados e localizada entre morros. Ali, o comércio começa a se desenvolver, ruas aos poucos são asfaltadas e instituições chegam à cidade, como é o caso do Tribunal de Justiça. Cerca de 47% da população tem menos de 20 anos e a maioria trabalha em outras localidades. Em São Sebastião, tudo é perto. As pessoas andam a pé ou de bicicleta e todo mundo se conhece. E uma de suas marcas humanas é a hospitalidade. “Todo mundo é bem recebido aqui”, diz Tião, com simplicidade.