sexta-feira, 8 de agosto de 2008

"Pai, me adiciona no orkut?"




Matéria especial dia dos pais para o site da Carta Capital.
Publicada em 8 de agosto de 2008.
Juliana Boechat.

Na perna esquerda do estudante Filipe Thadeu Furtado, 21 anos, tem uma tatuagem. São três datas que definem grandes marcos da vida do garoto. A primeira, como não podia deixar de ser, é a data do nascimento, em 20 de março de 1987. Logo abaixo, a adolescência e a ida ao show da banda favorita de rock Aerosmith, em 12 de abril de 2007. E o fato mais recente, o dia em que conheceu o pai, Saulo Furtado, em 11 de outubro de 2007. Filipe nunca imaginou que o grande encontro aconteceria. Muito menos que seria graças ao site de relacionamento Orkut, pouco usado por Filipe até então.

Desde a infância, o jovem mora em Brasília com a família materna. Enquanto isso, imaginava como seria a vida do pai em Arapongas, no interior do Paraná. Ele sabia que os irmãos tinham perfil no Orkut, mas nunca pensara em se aproximar. Mas em um dia qualquer, em um surto de coragem, Filipe enviou uma mensagem para Samira, irmã por parte de pai, três anos mais nova que ele. Ela não correspondeu. Estava em intercâmbio na África do Sul.

A outra saída era Sara, a irmã com a mesma idade, que não sabia da existência do irmão de Brasília. No início de setembro, depois de trocas de "scraps", a menina bonita adicionou Filipe no MSN. Certamente, o rapaz nunca esperava conhecer alguém tão importante via bate-papo virtual.

Logo na primeira conversa, ele contou: "Era uma vez uma história de um cara que tem dois filhos da mesma idade. E um deles mora em Brasília". Quando ela percebeu o acontecido, logo convidou o novo irmão para ir a Arapongas no feriado de 7 de setembro. "Achei melhor não ir, era muito cedo", lembra. Mas não resistiu. Como que por ironia, no dia das crianças o garoto arrumou as malas e se preparou para conhecer o pai.

A viagem durou cinco horas até Londrina, cidade mais próxima de Arapongas com aeroporto. Filipe sentia o coração palpitando com força, o estômago embrulhava quando pensava no assunto e suava frio. Mr. Tambourine Man, do Bob Dylan, foi o melhor sedativo e ficou marcada com todas as sensações daquele momento eterno. Ao chegar ao sul, se deparou com o inesperado. Na sala de desembarque estavam pai, "mãe", irmã e irmão. Depois do primeiro momento de abraços desconcertados, os dias se tornaram inesquecíveis para toda a família. "Era estranho viver e gostar de tudo aquilo".

E não havia motivos de preocupação. As primeiras impressões deixaram Filipe tranqüilo, confortável e satisfeito. Ele se sentia em casa, como não acontecia há anos. O pai, simples, de bom coração e feliz com a família que tem. Gigliola, a madrasta, virou a segunda mãe. Saulinho, o irmão de 15 anos se mostrou maduro e espontâneo. E Sara. "A pessoa mais maravilhosa que já surgiu em minha vida", define o estudante.

Filipe também se apaixonou à primeira vista por Arapongas. Assim como a família Furtado, a cidade era acolhedora e interiorana. Logo na entrada da cidade, viu a oficina do pai e ficou orgulhoso. Em grandes churrascos, foi apresentado ao resto da família e aos amigos. O avô materno, famoso na cidade por causa da fábrica de móveis que trabalhara, levou Filipe para participar da entrevista semanal na rádio local. Filipe contou sobre a rotina em Brasília e respondeu a perguntas inusitadas de quem não mora na capital do Brasil: "Você já encontrou Mônica Velloso na rua?".

Saulo, Saulinho, Gi e Sara acolheram Filipe como parte da família desde o primeiro momento. Na hora do almoço, conversas banais sobre unha encravada, bandas de rock e arrotos do irmão caçula mostravam como estavam confortável com a presença dele. Mas a grande prova da satisfação da família em receber Filipe apareceu de maneira inesperada. A família havia montado um quadro de fotos recheado de momentos dos irmãos e dos pais, com uma foto dele ao centro. "Filho, bem-vindo a sua família. Nós te amamos!". Filipe ficou roxo, as lágrimas quase transbordaram, mas ele se segurou ao máximo.

O último dia demorou a chegar. Filipe não queria que chegasse porque odeia despedidas. No aeroporto, depois de muitos flashes para registrar o momento, abraços fortes e carinhosos, o estômago dele voltou a embrulhar. O momento de deixar aquele sonho havia chegado. Mais uma vez guardou as emoções. Mas em Brasília, longe da nova família e da "velha", finalmente parou de resistir e chorou tudo o que guardara durante 20 anos. "A partir de agora serão sempre períodos de três dias ou férias. Fico com medo de não tirar o tempo de atraso", diz.

A viagem de poucos dias mudou a vida da família e de Filipe. O contato continua pelas modernidades de Orkut, MSN e celular. Ainda escapa algumas vezes da rotina em Brasília para conferir se o interior do Paraná continua do mesmo jeito que ele deixou. O natal do ano passado e a virada de 2007 para 2008 tiveram um gosto especial. Gosto de família. Agora, o dia dos pais, no próximo domingo, também será diferente. O dia, que antes era vazio, será recheado de saudade e vontade de estar perto do pai. A data, para Filipe, passou a ser a mais significante do ano.



domingo, 20 de julho de 2008

Quatro dias em uma cisterna



Juliana Boechat - estagiária do Correio

Julio Higor Ribeiro dos Santos, 8 anos, viveu quatro dias de agonia. Na última terçafeira, ele caiu em uma cisterna abandonada de aproximadamente 9m de profundidade e 1,5m de diâmetro, na periferia de Luziânia (GO). Dia e noite, implorou por socorro, que só veio na manhã de ontem. Apesar da queda, da falta de comida, de água e do frio, o menino foi resgatado em bom estado de saúde. Ele não sofreu fratura. Deve deixar o hospital hoje, após reidratação.

O acidente ocorreu por volta das 10h do último dia 15, no Lote 8, Rua 59, Quadra 328, do Parque Estrela D’ávila 4. De férias, o menino aproveita o dia para soltar pipas perto de casa. A linha do brinquedo acabou cortada pelo cerol da pipa de outra criança. Julio foi atrás de sua pipa, em uma área de cerrado. Como o terreno estava coberto por mato de quase 1m de altura, ele não viu o buraco e caiu.

Julio bateu o lado esquerdo do rosto no joelho e não conseguiu se segurar nas paredes de barro. Ele ainda tentou escalar a parede lisa algumas vezes. “Eu gritava muito. Dizia que era magrinho e queria um pão, mas ninguém me ouvia. Achei que não fosse mais sair dali”, contou, se recuperando no hospital. O menino não conseguiu dormir e, para amenizar o frio, abraçava o joelho e se cobria com o casaco. “Eu tinha medo dos besouros, grilos e lagartixas”, comentou.

Mãe de Julio, a dona-de-casa Eliete Rapouso do Carmo, 38 anos, deu falta do filho 15 minutos após ele avisar que buscaria a pipa. Eliete estranhou a demora e saiu à procura do garoto. “Olhamos nas cisternas perto de casa e ele não estava em lugar nenhum”, lembrou. No segundo dia de desaparecimento, Eliete registrou ocorrência na 1ª Delegacia de Polícia de Luziânia, acionou o Corpo de Bombeiros e distribuiu panfletos com o rosto do menino em paradas de ônibus e padarias. “Nessas horas pensamos tudo de pior. Mas não desisti. Rezava todas as noites para encontrar meu filho.”

Gritos na mata
Na manhã de ontem, em mais uma busca realizada pela família, a dona-de-casa encontrou uma agente de saúde que trabalha na região. A mulher a levou até uma cisterna escondida pelo mato alto. “Quando ouvi a voz do meu filho dizendo que estava vivo, gritei tanto que fiquei rouca. Era muita felicidade. Só queria abraçá-lo”, contou.

Os parentes do garoto acionaram o Corpo de Bombeiros às 8h48. “Ele estava fraco, sujo, mas passava bem e não tinha fraturas”, disse cabo Wellignton Gustavo Nascimento Monteiro, responsável pelo resgate. Ao descer na cisterna, ainda sem enxergar a criança, o cabo conversava com o menino para mantê-lo consciente. A missão durou cerca de 10 minutos.

O bombeiro fez questão de ir ao hospital à tarde ver como estava o menino. “Ele foi muito corajoso e forte. Estava completamente isolado, em uma mata”, ressaltou o militar. Julio estava bem e planejava o que fazer quando chegasse em casa. “Eu quero abraçar a minha mãe, assistir Chaves (desenho animado) e soltar pipa”, adiantou.

Risco constante
A cistena em que Julio caiu está aberta há quase 10 anos e não foi fechada ontem. A vizinha do lote, Luzia Cristina Pereira Santos, 38 anos, disse ter ouvido gritos de socorro, mas como estava distante, não imaginou que fosse alguém na cisterna atrás de sua casa. “As crianças brincam de pique- esconde no meio do matagal”, contou. Segundo o cabo Gustavo, os bombeiros atendem a pelo menos dois pedidos diários de salvamento de pessoas e animais caídos em cisternas e fossas da região.

Um acidente parecido ao de Julio ocorreu há dois dias no bairro Itapoã 1, em Planaltina de Goiás. Jeferson Ferreira, 13 anos, morreu ao cair em uma cisterna abandonada. Ele e um amigo saíram para soltar pipa em uma área de cerrado, no começo da noite de terça-feira. O garoto perdeu o equilíbrio e despencou no buraco. O Corpo de Bombeiros do Distrito Federal resgatou o corpo no dia seguinte.

sábado, 28 de junho de 2008

ABANDONO sem conforto e segurança

Renato Alves, da equipe do Correio e Juliana Boechat, estagiária do Correio.

A Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai), no Gama, abriga índios que buscam tratamento médico no Distrito Federal, como Jaiya Pewewiio Tfiruipi Xavante, a menina morta quarta-feira. Segundo os hóspedes, o prédio no Km 20 da BR-060 (rodovia Brasília— Goiânia) não oferece conforto e segurança. As instalações são precárias e falta material de limpeza. Os abrigados dormem em colchões e camas velhos e usam banheiros coletivos (para homens, mulheres e crianças), sujos e desgastados. Já os funcionários convivem com corriqueiros atrasos de salários.

A direção do Casai no Distrito Federal e o delegado Antônio Romeiro, da Polícia Civil, não permitiram o acesso da impressa à casa ontem nem entrevistas com os índios abrigados. Mas o Correio esteve no albergue no fim de 2007 e no início deste ano e conversou ontem com funcionários da casa e acompanhantes dos indígenas. Eles relataram ser comum conflitos entre etnias. A segurança é feita por três vigilantes, um por turno. Há duas enfermeiras durante o dia e duas à noite.

Uma índia camayurá que veio visitar o pai abrigado na Casai do DF, contou que ele pediu para ir embora por causa das péssimas condições do prédio. “Ele tem pressão alta e catarata. Reclamou que não suporta o frio. Na aldeia, acende fogueira ao lado da rede. Aqui, não tem jeito. Passei uma noite lá (no Casai). Dormi em um colchão furado, sem cobertor”, reclamou a índia. Ela contou ainda que esteve hospedada na casa, anteriormente, por dois anos. “Antes, era melhor. Agora, é sujo e não tem faxineira.”

Moradora de uma aldeia de Mato Grosso, a indígena relatou ainda que qualquer pessoa entra na casa. Os vigilantes não cobram identificação, segundo ela. Presidente da Ateni (que significa voz pela vida, na língua dos suruarrá), ONG que trabalha em defesa do direito das crianças indígenas, Márcia Suzuki confirmou as denúncias da camayurá. “Já visitei Casais do país inteiro. O do DF, sem dúvida, é um dos piores”, ressaltou. Ela apontou a falta de segurança como um dos piores problemas da casa do Gama: “Como há muitas etnias juntas, as brigas são comuns. Os poucos vigilantes não dão conta do serviço”.

Márcia Suzuki recebeu a visita ontem de outro índio camayurá hospedado na Casai do DF por causa do filho. O menino tem síndrome de Down e não pode voltar à aldeia porque sofre discriminação. “Ele estava desesperado, em busca de fralda, sabões e papel higiênico. Não havia nada disso na casa. Os sabões eram para lavar os lençóis em que o filho dele dorme”, contou ela. Por causa da precariedade da Casai, ela acolhe alguns índios na própria casa, como a filha do camayurá que está no DF para tratar da pressão alta e da catarata.

Serviços médicos
Há 73 Casais nas regiões brasileiras com população indígena. Elas são administradas por ONGs, por meio de convênios com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão vinculado ao Ministério da Saúde. A Casai do Gama foi criada em 1999. Em geral, os índios vêm para a capital federal devido à falta de serviços médicos em seus locais de origem. A maioria dos internos faz tratamento nos hospitais Universitário de Brasília (HUB) e de Base do Distrito Federal.

Com capacidade para 70 pessoas, a Casai candanga já hospedou 295 de uma vez. Na última terça-feira, quando Jaiya Xavante passou mal, havia 56 pessoas no local, entre pacientes e acompanhantes. Em todas as Casais, a idéia é que os pacientes e familiares retornem às suas tribos depois de curados. No entanto, alguns precisam de tratamentos regulares e passam mais tempo do que o previsto inicialmente.

No ano passado, os ocupantes da Casai local quase foram despejados por causa da burocracia da Funasa. O convênio com a ONG que administra o abrigo, no valor de R$ 2,9 milhões, acabou em junho. O contrato foi prorrogado por mais um ano, mas, até meados de agosto, o dinheiro não havia sido liberado porque uma auditoria interna da Funasa analisava problemas de administração da entidade conveniada. Sem verbas, os funcionários ficaram sem salário por três meses.

A ONG era responsável pelos serviços gerais, manutenção, compra de medicamentos e pagamento dos 45 funcionários — 15 deles eram técnicos em enfermagem, mas havia também um enfermeiro, um nutricionista e um médico. Embora não ofereça atendimento clínico, a casa deveria providenciar serviços como troca de curativos, aplicação de soro, orientações sobre medicamentos indicados por especialistas, entre outros.

Silêncio
Ninguém da Funasa deu entrevista ontem. A fundação se pronunciou apenas por meio de nota oficial, que não informou quanto gasta com a Casai do DF e o tratamento dos indígenas. No comunicado, o órgão garantiu que “na Casai, a Funasa mantém serviço de vigilância 24 horas”. Afirmou ainda que “no local, eles recebem medicamentos, atendimento da equipe de enfermagem, transporte e alimentação balanceada”.

A falta de assistência levou um grupo de indígenas a acampar na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), mês passado. Pelo menos 30 índios da etnia xavante (10 deles crianças com menos de 10 anos) mudaram-se para os corredores térreos e a garagem do prédio. Famílias improvisaram dormitórios usando colchonetes e pedaços de papelão em vez de camas.

Uma festa para São Sebastião



Juliana Boechat - Estagiágia do Correio Braziliense

Os 15 anos comemorados hoje por São Sebastião contam apenas uma parte da história da comunidade. Na década de 1950, o local englobava as fazendas Taboquinha, Papuda e Paranoá e era povoado pelos escravos da sinhá Luzia, dona do engenho, conhecida como Velha Papuda. No meio do cerrado, encontravam-se guilhotinas, lugares de penitência e grande produção rural. Quase 60 anos depois, São Sebastião, a Região Administrativa 14 (RA 14), a 26km de Brasília, virou uma cidade independente, livre para crescer além de seus atuais 100 mil habitantes, e hoje tem muito a comemorar. A festa de aniversário começa às 8h30 e termina às 17h, com apresentações de grupos musicais e o corte do bolo de 15m.

Segundo o administrador da cidade, Josino Alves da Costa, São Sebastião deu um grande passo quando recebeu uma gestão própria, em 1993. Padeiro, Josino mora na região há 25 anos e comemora as últimas conquistas do lugar: “Ganhamos canalização da rede de esgoto, um Tribunal de Justiça e em breve os lotes terão escritura”. Para o futuro, uma visão otimista: “São Sebastião ainda é uma menina. Vamos aproveitar essa fase e nos preocupar com necessidades futuras”. A cidade receberá uma estação da Companhia energética de Brasília e a esperança é que indústrias procurem se instalar na região.

Mas nada disso poderia ser comemorado hoje se não fosse a coragem de Sebastião de Azevedo Rodrigues, 65 anos, que deu nome à cidade. Ele chegou à região em 1959 em um pau-de-arara (caminhão que transportava migrantes do Nordeste e de outras regiões para Brasília, Rio e São Paulo, entre outras cidades) vindo de Patos de Minas (MG) com mais sete pessoas de nome Sebastião para trabalhar nas olarias e produzir os tijolos usados na construção de Brasília.

O começo
Sebastião de Azevedo tirava areia, matéria-prima dos tijolos, do Rio São Bartolomeu. Por isso, recebeu o apelido de Tião Areia. No início da década de 60, muitas olarias foram abandonadas e quem havia chegado ao Planalto Central em busca de emprego ficou sem trabalho. Foi então que Tião passou a coordenar a sua própria olaria. Em pouco tempo, era a pessoa mais rica da cidade. “Eu tinha 22 caminhões, sete olarias, e três máquinas de carregar areia. Isso era muita coisa”, lembra orgulhoso. Mas por volta dos 40 anos, Tião descobriu que estava com doença de Chagas e foi informado pelo médico que a morte era inevitável.

Com a mudança brusca dos planos, Tião Areia tomou uma decisão: “Eu era muito rico e ia morrer. Então resolvi ajudar os outros”. A partir de então, distribuiu espaços de terra vazios na região para amigos e familiares. Ele construiu casas de alvenaria para as pessoas mais carentes e buscou moradores de outras regiões para povoar a atual São Sebastião. Logo, o que hoje é o centro da cidade se transformou em uma pequena comunidade com 72 casas construídas por ele. “O problema é que eu não morri”, brinca Tião, que se curou com medicamentos naturais. Então ele continuou a ajudar as pessoas.

Orgulho
A primeira esposa de Tião, Maria Silva Rodrigues, 58 anos, acompanhou de perto a trajetória do ex-marido. Juntos, construíram e cuidaram do posto de saúde, da creche e conseguiram a iluminação para as casas. Quando recebeu a notícia de que ia morrer, Tião passou todos os bens para Maria. Até hoje, ela mora em frente à Praça Tião Areia, no centro da cidade, em uma casa com um grande quintal e espaço para receber os 10 filhos e 22 netos que teve ao longo da vida. “É muito bom ver a nossa cidade como está hoje”, orgulha-se.

Tião foi obrigado a deixar a antiga casa, logo na entrada da cidade. Enquanto espera o novo lote, vive em uma casa de um cômodo, com duas camas, uma mesa de plástico e homenagens presas na parede. “Estão fazendo suspense, mas acho que o lote vai ser perto da minha praça”, imagina. Ele gosta de mostrar o Morro da Cruz, com um cruzeiro construído pelos escravos. O fundador vê, de cima, a cidade que começou a construir. Ele costumava ir ao local pedir a Deus namoradas e chuvas na época da seca. Hoje, ele agradece a saúde e a coragem que teve ao longo dos anos. “Fico orgulhoso em ver as coisas como estão atualmente, os ônibus cheios chegando e saindo da cidade no início e no fim do dia. Antigamente não tinha nada. Não me arrependo de nada”, garante.

São Sebastião é uma região com estilo de cidade de interior. É afastada de lugares movimentados e localizada entre morros. Ali, o comércio começa a se desenvolver, ruas aos poucos são asfaltadas e instituições chegam à cidade, como é o caso do Tribunal de Justiça. Cerca de 47% da população tem menos de 20 anos e a maioria trabalha em outras localidades. Em São Sebastião, tudo é perto. As pessoas andam a pé ou de bicicleta e todo mundo se conhece. E uma de suas marcas humanas é a hospitalidade. “Todo mundo é bem recebido aqui”, diz Tião, com simplicidade.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

"A filha que nunca tive"


Juliana Boechat - Estagiária do Correio
Caderno especial Taguatinga 50 anos.
Foto: Marcelo Ferreira - CB

Relato Elisa Celeste Vieira, dona da primeira casa de alvenaria do Distrito Federal

"Cheguei ao Brasil em 1951.Nasci e vivi em Portugal até que meu marido, Abílio Martinho, resolveu sair em busca de novas oportunidades de trabalho. Mudamos para o Rio de Janeiro, mas, como meu marido era azulejista e muito bom com obras, correu para o centro do Brasil assim que soube da construção de Brasília.Eu só vim para a Cidade Livre em 1956. Ganhamos um lote do governo e um barraco de madeira, como todo mundo.Mas encontrávamos sempre lagartos e cobras dentro do barraco e meu marido comprou um novo lote na QNA. Construiu uma casa com cimento e tijolos, a primeira de alvenaria do Distrito Federal.Era uma verdadeira mansão. Atrás da casa, fizemos um poço artesiano com 20m de profundidade.Moramos lá por dois anos e logo nos mudamos para construir um novo prédio de alvenaria para Abílio ter a padaria que sempre quis. Era muita coragem investir em uma cidade que não existia. O pequeno prédio na CSB 6, onde moro até hoje, também foi uma das primeiras construções de alvenaria da cidade. Taguatinga é a filha que eu nunca tive."

Em ritmo acelerado


Juliana Boechat - Estagiária do Correio
Caderno especial Taguatinga 50 anos.

Taguatinga nasceu em 5 de junho de 1958. Lucio Costa havia planejado uma cidade-dormitório para os pioneiros que erguiam a nova capital do Brasil. Mas não imaginava que em pouco tempo o cerrado daria lugar à localidade mais populosa do Distrito Federal. Naquela época, desbravadores de várias partes do país, nordestinos na maioria, chegavam ao Planalto Central em busca de emprego. Três meses antes da inauguração de Taguatinga, o maranhense Nenesio Aragão Duarte, 69 anos, mudou-se para a região. A partir de então, a cidade e a família de Aragão cresceram juntos.

Nenesio lembra o que viu quando chegou: "Era muita poeira e mato. Tinha quatro tratores abrindo ruas, uma barraca de lona com uma placa da Administração de Taguatinga e uma caminhonete amarela estacionada". A Novacap recrutava funcionários do governo e o maranhense foi um dos selecionados. Eles tinham que cadastrar pessoas transferidas da avenida W3 e da Vila Amauri, que acabou tragada pelas águas do Lago Paranoá, para os alojamentos provisórios da futura cidade. Mas não foi fácil. "Ninguém queria morar no meio do mato, sem conforto algum. Dois dias depois, todo mundo voltava de onde tinha vindo", lembra Nenesio.

Ao mesmo tempo em que Brasília era erguida, Taguatinga tomava forma rapidamente. Nos primeiros 10 dias, 4 mil pessoas moravam na região, ainda sem infra-estrutura, luz e água. Poucas famílias tinham condições de manter um gerador. "O resto da vila vivia na escuridão", conta Nenesio. Alguns cavavam poços artesanais que chegavam a 20m de profundidade. "A inauguração de Brasília se aproximava e o trabalho apertava. As pessoas trabalhavam o tempo todo e dormiam às 20h. Nada podia ser feito na escuridão", conta o pioneiro.

A situação começou a mudar em 1960. Os equipamentos públicos de saúde e educação apareciam aos poucos e a cidade tinha 30 mil habitantes. Na virada dos anos 50 para os 60, Nenesio conheceu a atual mulher, Gersina de Sousa Duarte, 62, em uma festa junina na igreja Nossa Senhora do Pérpetuo Socorro, onde hoje funciona o Centro Educacional Stella Maris. Três anos depois, já casados, tiveram contato com os primeiros telefones instalados na cidade. E em 1969, o número de aparelhos havia se multiplicado: 400, no total, e um posto de serviços para ligações interurbanas.

Até 1973, a família Aragão morou no centro da cidade e, à luz de velas e lampião, viu Taguatinga se transformar. A partir de 1966, as ruas foram asfaltadas, as primeiras lojas comerciais apareceram e a madeira das casas foi substituída por alvenaria. "Também reformamos a nossa casa", lembra, orgulhosa, Gersina. O casal teve dois filhos: José Vital, 45, e Tânia Regina, 43. A relação das crianças com a cidade já era bem diferente. As ruas eram asfaltadas, iluminadas e viravam palcos de brincadeiras de rua.

Na adolescência, Tânia só saía da cidade para fazer faculdade. À noite, freqüentava com os amigos os lugares mais badalados de Taguatinga: a Praça do DI, a sorveteria Cogumelos e lanchonete Sanducha. Um cinema e festas na casa dos colegas também caíam bem. A volta para casa era a pé, à noite, sem perigo. Depois que casou, ela saiu de Taguatinga. "Foi a melhor época da minha vida. Fui feliz aqui", recorda Tânia.

Verticalização
Por volta de 1968, Taguatinga tinha 100 mil habitantes e mais de 12 mil crianças foram registradas na cidade. Sinal de que o crescimento estava só começando. O comércio se consolidava. Eram mil estabelecimentos, 50 indústrias leves e hortifrutigranjeiros. Em 1979, Taguatinga estava com outra cara. Não podia mais ser comparada àquela pequena cidade de interior de 20 anos antes. Mas o espaço era cada vez mais escasso e a cidade não podia mais crescer no sentido horizontal. O caminho era a verticalização: os prédios comerciais construíram o segundo andar e os edifícios residenciais altos começaram a aparecer. No meio da explosão imobiliária, nascia o filho mais novo de seu Aragão, Wesley Duarte, 29 anos.

Dona Gersina temia aquela expansão: já havia problemas com segurança e trânsito. Temerosa, ela não dava a Wesley a mesma liberdade que concedeu aos outros filhos. As brincadeiras de infância eram perto de casa. A adolescência nas boates, como a London London, no centro. Antes de entrar, ele e os amigos ficavam na Praça do DI com os sons dos carros ligados em alto volume. "Rachas e pegas viraram moda. Muita gente morreu em acidentes", lembra ele.

Com 30 anos, em 1988, Taguatinga beirava os 500 mil habitantes e estava entre as 45 maiores cidades do país. Em 2005, a cidade tinha 259,1 mil moradores. Neste ano, são quase 300 mil, entre eles, os Aragão (seu Nenesio já tem dois netinhos). O futuro, diz o administrador Benedito Domingos, deverá ser bem planejado. "Precisamos de mais prédios e haverá uma área de diversão e revenda de carros depois da saída norte. Taguatinga virou um pólo econômico, social, de educação e saúde para outras cidades do DF e de Goiás. A tendência é só melhorar", resume o político.

Tradição e negócios


Juliana Boechat - Estagiária do Correio Braziliense
Caderno especial Taguatinga 50 anos.

Taguatinga tem cara de metrópole. As ruas são largas, pessoas vão e vêm de todos os lados e motoristas impacientes buzinam. O comércio, a principal atividade econômica da cidade, chama a atenção. Só no centro de Taguatinga passam, por dia, cerca de 8 mil pessoas em busca dos mais variados tipos de mercadorias e serviços. Mas é na Comercial Norte onde o comércio mais floresceu. É lá que dois centros comerciais se destacam: o Mercado Norte e o Taguacenter.

Eles ficam lado a lado e contrastam tradição com modernidade. O Taguacenter, inaugurado em 1977, acompanhou o crescimento apressado de Taguatinga e logo se tornou um dos maiores símbolos do comércio na cidade. À beira da Avenida Hélio Prates, é fácil perceber a fachada de combogós azuis e laranjas e o colorido das lojas de tecido viradas para a rua. Moderno, o pequeno shopping atrai cerca de 7 mil pessoas todos os dias em busca de panos para roupas, bijuterias ou peças para produção de artesanato. Os estabelecimentos sempre garantem variedade, preço baixo e, com isso, clientela fiel.

Algumas lojas foram criadas ao lado do pequeno shopping e, com o passar do tempo, só cresceram. Este é o caso do Armarinho Novidades. O comércio é da família de Francisco de Sousa Leite, o seu França. Quando começou o negócio, no final da década de 1970, ele só conseguiu comprar 50 metros quadrados de loja. "Era caro demais, então começamos de baixo", lembra França. Hoje, são 3 mil metros quadrados divididos em dois andares, com mais de 14 mil tipos diferentes de produto. "Tinha um cinema no subsolo, mas assim que ele foi desativado, ampliamos a loja", conta Zélia de Azevedo, esposa de França. Ela diz que o Taguacenter seguiu a tendência da cidade ao longo dos anos e os comerciantes do mercado não passaram por crises econômicas.

"O Taguacenter cresceu com o armarinho e nós crescemos com o shopping", acredita. Os quatro andares do prédio se dividem em salas comerciais e lojas de tecido, de bijuteria a armarinhos. Ao oferecer serviços básicos para a população — salas de dentistas e médicos —, o lugar atraiu a população e firmou o nome no comércio local. "É referência. Tanto é que alguns ônibus colocaram o Taguacenter como destino final da viagem", diz Zélia.

A realidade do Mercado Norte é bem diferente. Desde a inauguração, em 1961, o galpão mantém a aparência e as letras garrafais na fachada. O mercado tradicional foi erguido quando o comércio de Taguatinga era formado por mascates e comerciantes que vendiam mercadorias de porta em porta. Nessa época, açougues, lojas de roupa e a pastelaria Dois Irmãos eram as maiores atrações do mercado. Aos poucos, muitas lojas deram lugar a armarinhos, restaurantes e mais lojas de roupa. Mas a pastelaria continua.

Em família
Beatriz Bernardes Yamaguti, 57 anos, também está há muito tempo no mercado. Mineira, chegou à idade com 11 anos e, aos 14, começou a trabalhar na barraca de roupas da irmã mais velha. Foi ali, entre os corredores, que conheceu Getúlio Yamaguti, o atual marido. Na década de 1960, ele trabalhava a dois corredores de distância, no armazém de um primo. Pouco tempo depois do primeiro encontro, começaram a namorar, se casaram e tiveram os primeiros filhos.

Para manter a casa, compraram um espaço no mercado. "Construímos a nossa casa com o dinheiro que ganhamos na loja. Dá para viver muito bem", diz satisfeita. O casal investiu em uma loja de roupa e juntos fizeram do Mercado Norte a segunda casa. A história do mercado é contada a cada corredor, em cada loja, por várias gerações. "É como estar em família", conta Beatriz.

Já o Mercado Sul, na QSB 13, foi o primeiro centro comercial organizado de Taguatinga. Inaugurado ainda na década de 1960, quando o comércio se desenvolvia na cidade, o local era freqüentado por pessoas em busca de miudezas. Desde aquela época, a principal característica do mercado é a falta de um limite físico para unir os lotes. As lojas são separadas e sem espaços definidos, com grande capacidade de mobilidade. No início da década de 1990, com a "explosão" do comércio em Taguatinga, o Mercado Sul entrou em decadência. Hoje em dia, a maioria das lojas oferece prestações de serviço como consertos de eletrodomésticos, serralherias e lojas de estofados.